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Domingo, Outubro 17, 2021

Afeganistão: Como financiarão os talibans a economia?

Arnaldo Xarim
Economista

Talvez o problema mais urgente que espera o futuro governo taliban seja o de como financiar a economia do seu país, depois de duas décadas de uma ocupação militar estrangeira que nunca mostrou grande preocupação com isso.

Neste momento é quase certo que a ascensão de um novo poder em Cabul determinará a suspensão de grande parte da ajuda externa, eliminando assim aquela que tem sido a principal fonte de financiamento da economia afegã nas últimas décadas.

A ajuda externa ao desenvolvimento é da ordem de 4 mil milhões de dólares, ou seja, pouco mais de 20% do PIB, mas a ela deve ser adicionado o dinheiro recebido para operações militares e de segurança, que representando outros tantos 20% do PIB, chegou a valer mais de 100% entre 2007 e 2011.

O problema deste modelo de apoio, há semelhança do que acontece noutros países e noutras regiões do globo, é que grande parte dela perde-se nos meandros das agências internacionais ou traduz-se em projectos que favorecem os países doadores, contribui para o aumento das importações e dos déficits comerciais – tornando assim a economia ainda mais dependente do financiamento externo – e não para a formação de uma rede de abastecimento local. Como já foi amplamente demonstrado (ver «A Armadilha da Dívida Externa» de Cheryl Payer, editado pela Moraes Editores na década de 1970), este modelo de “ajuda” apenas contribui para o aumento das importações e dos déficits comerciais, tornando as economias assistidas ainda mais dependentes do financiamento externo.

Um estudo recente de um especialista local, mostra que, sob ocupação ocidental, o país era governado por um Estado rentista cuja ajuda externa servia fundamentalmente a capital e os grandes centros populacionais enquanto permanecia globalmente inacessível a uma população rural que vivia da produção de subsistência e da economia informal, facto que ajuda a explicar a facilidade e a rapidez com que os talibans recuperaram os territórios rurais, mediante simples negociações com representantes das autoridades locais, uma vez que o governo central estava ausente dessas regiões.

Se é verdade que ao longo dos últimos vinte anos, no plano meramente financeiro, o país foi acumulando reservas em ouro e moeda estrangeira (de acordo com dados oficiais, passaram de 3 mil milhões de dólares em 2008 para quase 10 mil milhões no ano passado, valor que equivale a metade do PIB do país), para estabelecer gradualmente as capacidades necessárias para atender às necessidades de financiamento do país, não o é menos o facto destas estarem sedeadas nos EUA e de cerca de sete mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros) serem títulos de dívida da Reserva Federal da potência ocupante.

Além de parqueadas fora do sistema financeiro afegão, segundo informação de Ajmal Ahmady, o fugitivo ex-governador do banco central afegão, a grande maioria das reservas do país estão a servir para financiar a economia do ocupante (sob a forma de Títulos do Tesouro norte-americano) e agora inacessíveis ao futuro governo, por ordem da administração Biden.

Depois de décadas sem relevantes sinais de desenvolvimento de qualquer estrutura produtiva digna desse nome, agora privados de reservas e até de dinheiro líquido (uma remessa de moeda foi suspensa poucos dias antes da fuga do presidente Ashraf Ghani e da tomada de Cabul e os bancos estão encerrados desde meados de Agosto) a frágil economia afegã enfrenta acrescidos riscos de inflação, de uma ainda maior desagregação e do crescimento exponencial da economia paralela. Situação que é tanto mais grave quanto já se sabia que o sistema fiscal afegão não renderia mais de 8 a 10% do PIB de uma economia da qual cerca de 80% passa pelo sector informal.

 

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