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Quinta-feira, Maio 26, 2022

Para além da guerra dos taxistas

Carlos Narciso
Carlos Narciso
Jornalista

Taxistas

 

O que aquele homem disse, numa analogia idiota às Leis que são violadas como as meninas virgens, não passa de um tropeço linguístico derivado da exiguidade vocabular com que se exprime… ele que, por certo, costuma passar os olhos pelo interior do Correio da Manhã, em frente ao microfone da CMTV inspirou-se e arrotou uma alarvidade. Estavam à espera de quê?

Generalizar é sempre um mau caminho e, acreditem, há muitos taxistas que são óptimos pais de família, maridos extremosos e amigos do seu amigo.

Há imensos taxistas, não tenho nenhuma dúvida, que são excelentes profissionais, falam várias línguas e alguns até saberão tocar piano, embora isso não seja uma mais-valia para o exercício da profissão, a não ser que o cliente seja musicólogo ou melómano.

Há imensos taxistas que tomam banho diariamente e que exercem com ética a sua actividade e não tentam enganar o cliente com a tarifa aplicável ao percurso efectuado.

Enfim, conheço espécimes humanos muito menos recomendáveis que a maioria dos taxistas.

O que importa destacar, no entanto, é a questão que levou os taxistas à revolta. O fenómeno deu já a volta ao Mundo, atravessou já a Europa e só agora chegou a Portugal.

O surgimento de novas empresas que prestam um serviço semelhante ao táxi mas que funcionam nas redes sociais através de um aplicativo nos telemóveis. Ou seja, a Uber e a Cabify e as outras empresas similares não têm praça de táxi, o veículo está “estacionado” na net à espera da chamada do cliente.

É tão simples que até chateia, nem se percebe por que razão as empresas tradicionais de táxis não se lembraram disto antes.

O problema desta nova concorrência é que além de não terem praça de táxi, também não pagam licenciamento e não têm de obedecer a nenhum requisito especial para recrutar os seus colaboradores, porque não são trabalhadores. Ou seja, pagam comissões em vez de salários, isentaram-se a si próprias de taxas e licenciamentos e nem sequer precisaram de adquirir viaturas, de as pintar de preto e verde ou amarelo, ou de qualquer outra cor, os carros são dos colaboradores.

Sempre achei graça a este tipo de empreendedorismo: empreiteiros que alugam serviços a outros empreiteiros de menor dimensão e que escapam à maçada do pagamento de salários e contribuições para a Segurança Social e da aquisição de equipamentos e que ainda têm a lata de proclamar que saem mais barato ao cliente final.

Pois saem… pudera.

O pior é que este caminho de puro capitalismo leva-nos ao “paraíso” da iniciativa privada, sociedades onde todos são pequenos comerciantes ou vendedores ambulantes ou prestadores de serviços, tipo Bangladesh, Índia ou Paquistão.

Podemos combater isto? Podemos, mas temos de querer muito.

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores e não reflectem necessariamente os pontos de vista da Redacção ou do Jornal.

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