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Domingo, Agosto 14, 2022

Além do PIB

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Entre os indicadores económicos mais usados conta-se, seguramente, o PIB, não havendo dia nem ocasião em que se abordem questões como o crescimento económico ou o estado das economias, para ele não servir de referência e de argumento na discussão.

O PIB (acrónimo de Produto Interno Bruto) define-se como o valor da produção total de bens e serviços, a preços de mercado, que são produzidos num determinado país (ou região) durante um período de tempo, geralmente um ano ou semestre; este cálculo pode se executado na óptica da produção, somando o valor acrescentado de cada sector industrial líquido de todos os inputs (excluindo os consumos intermédios com o objectivo de evitar o problema da dupla contabilização), ou na óptica dos rendimentos, mediante o somatório dos rendimentos de todos os intervenientes no processo produtivo.

Simon Kuznets

A partir deste indicador, cuja formulação se deve a Simon Kuznets (economista russo, naturalizado norte-americano, grande impulsionador da investigação sobre contabilidade nacional e vencedor do Nobel em 1971 pelo seu trabalho sobre desigualdade de rendimento e crescimento do produto que esteve na origem da chamada “curva de Kuznets”), pode ainda estimar-se o PNB (Produto Nacional Bruto) pela simples adição dos rendimentos líquidos dos capitais aplicados no exterior, além de dele próprio poder ser apresentado na forma nominal (quando os cálculos são realizados a preços correntes) ou na forma real, quando se desconta o efeito da inflação.

Em qualquer uma das suas versões, sendo o PIB uma avaliação da produção em cada período, é uma noção muito utilizada em termos de previsão e de orçamentação, pública e privada, e a sua taxa de crescimento serve para calcular as próprias taxas de crescimento sectorial ou da procura em geral; nunca foi, porém, um conceito isento de críticas, nomeadamente o facto de incluir apenas a produção que se regula por preços de mercado (economia formal), não integrar os efeitos externos negativos (como a poluição) ou positivos (como a inovação) e por não abranger dimensões essenciais da natureza humana e da vida social, como a qualidade da vida, a saúde e a esperança de vida.

O PIB, ou melhor a sua evolução, é ainda o indicador usado para definir as situações de recessão económica (período de diminuição do PIB que ganha aquela qualificação quando ocorre durante três trimestres seguidos), situação que implica o aumento das dificuldades de pagamento e do risco de falência.

Embora o seu próprio criador, Simon Kuznets, sempre tenha reconhecido que nunca tentou medir com ele o progresso total de um país, há décadas que ele é usado nesse sentido e, pior, utilizado no debate político e económico quase como o supremo Graal, em nome de cujo crescimento tudo deve ser subordinado, ou, para usar uma expressão de Joseph Stiglitz (economista norte-americano, da escola neokeynesiana e vencedor do Prémio Nobel em 2001 pelo desenvolvimento da teoria dos mercados com informações assimétricas), convertido num fetiche que todos seguem mesmo desconhecendo as razões para tal e as implicações daí resultantes. Assim, o PIB converteu-se no centro da competição económica entre países, na justificação para as taxas de juros, na obsessão dos políticos (durante e após os pleitos eleitorais) e no indicador fundamental para empresários e investidores, tanto servindo para distinguir as principais e mais importantes economias mundiais, como para apontar o insucesso de políticas de desenvolvimento quando o seu crescimento é inferior ao do das economias concorrentes ou vizinhas.

Sem negar o seu valor estatístico e informativo, têm surgido algumas propostas para a elaboração de indicadores alternativos, mas, seja por mero comodismo ou verdadeiros defeitos intrínsecos, até ao momento nenhum se impôs como o velho PIB.

 

Além do PIB | Parte II

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