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João de Sousa

Domingo, Outubro 24, 2021

Arquitetura da sensibilidade

Na poesia de Alexandre Bonafim, reconhecemos a veia helênica na concisão das linhas.

Noite de Dioniso, o mais recente livro de Alexandre Bonafim, publicado pela editora Terra Redonda, concilia o furor sensualista com a geometria, a arquitetura do poema. A carnalidade está presente em versos concisos e vigorosos como os de Jovem Desnudo:

“No mais secreto íntimo
de teu corpo respira
um touro decepado
Com ímpeto selvagem
esse animal apunhala
meu corpo
meus sonhos
os nomes todos
de minha agonia”.

Podemos ouvir aí ecos do paganismo poético de Eugênio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen, poetas que também escreveram sob o influxo do fascínio pela Grécia Clássica, não a dos filósofos e dos políticos – mas a Grécia do encantamento dos sentidos, do êxtase selvagem, que também interessou a Nietzsche.

Na poesia de Alexandre Bonafim, reconhecemos a veia helênica na concisão das linhas – como acontece em Safo e Alceu – carregada de eroticidade, na escolha do vocabulário, nos ritmos, nas imagens precisas, substantivas, e ainda em fortes metáforas, como é o caso do poema Rosto:

“Não há como fugir
dessa verdade frontal
estúpida:
fitar teus olhos
e desenhar em tuas pupilas
o ardor de um tigre cego”.

O corpo do outro é percebido como campo de múltiplas possibilidades sensoriais, mas também como morada, espaço de recolhimento, intimidade e repouso, à maneira de João Cabral, como lemos no poema Casa:

“Habitar-te
em tudo o que és
até onde jamais fostes
e nascer de teu ventre
como a sílaba primeira
de teu riso
Morar em ti
como quem escalpela
a face contra espinhos”.

Em outras composições, a posse da pele do outro tem certo viés furioso, que realça a intensidade da experiência, como acontece na breve peça intitulada Amálgama:

“Talhar teu corpo no meu sangue
até arder no âmago do fogo
a delicada luz do vinho”.

Ou em alguns versos de Afago:

“Desnudar-te
até os ossos
onde um abismo
soletra a angústia
a alegria
em cada brilho
dos meus olhos”.

E ainda em Martírio (em que está implícita a imagem de São Sebastião, sincretizado em algumas regiões do Brasil com Oxóssi):

“Ardoroso desejo
flecha a cravar-me
no martírio do meu sangue”.

Claro: Alexandre Bonafim sabe, como Nestor Perlongher, da íntima relação entre o papel e a pele, a tinta e o esperma, a materialidade da carne e dos ossos e a do corpo poético, formado por imagens e ritmos, metáforas, metonímias e todos os jogos da linguagem. A relação erótica, aqui, é sempre dupla, textual e não textual, subjetiva e objetiva, ficcional e verídica, numa unidade contraditória em constante ebulição, que podemos exemplificar com outros versos do livro:

“Contemplar teus pés descalços
Ter os olhos perfurados
pela aparição das rosas brancas”.

É a consciência da materialidade da linguagem que evita a fácil adesão ao confessionalismo, onde a função emotiva se sobrepõe à função poética – para usarmos os conhecidos conceitos de Jakobson. Não é o caso de Alexandre Bonfim, artista que sabe usar o pincel com inteligência e sensibilidade, surpreendendo o leitor com os jogos de imagens e de ideias que realiza em sua escritura.

É o que acontece no quase barroquismo de poemas como Solidão:

“Olhos de um cego
dentro da noite
dentro dos olhos
de outro cego”.

E em Esta a Hora Violenta:

“Dá-me tua boca
para eu escrever a palavra
onde um pássaro
voa dentro de si mesmo”.

O resto, leitor, é descoberta: mergulhe nas páginas desse livro e deixe-se seduzir pelo Dioniso da poesia!


Noite de Dioniso

Noite de Dioniso, o mais recente livro de Alexandre Bonafim, publicado pela editora Terra Redonda


por Claudio Daniel, Poeta, tradutor e ensaísta, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, além de pós-doutor em Teoria Literária pela UFMG   | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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