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João de Sousa

Terça-feira, Dezembro 6, 2022

América

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

É certo que nos últimos anos os soldados de metralhadora e unimogs se tornaram parte da paisagem em Bruxelas ou Paris, mas os motores não ronronam da mesma forma e, sem desprimor para ninguém, não conheço nada como um soldado americano e as memórias de aventura que estes me suscitam.

Depois, aquilo dá ideia de uma espécie de festival do Verão quente de 1975 em versão invernal, com bandeiras de foice e martelo, da Palestina, com cartazes e dizeres agressivos, megafones, bancas com t-shirts e adereços revolucionários, e isto lado a lado com os stands que vendem todos os adereços da nova presidência e os milhares de americanos que se dirigem para a “Porta Amarela” com os bilhetes da mesma cor, com um entusiasmo e uma fé impressionantes na investidura do novo Presidente.

Mesmo se a tensão estava no máximo, ninguém desatou à estalada e tudo rodava ali com uma impressionante compostura e respeito pelo próximo, mas não fiquei surpreendido ao saber de actos de vandalismo em várias partes da cidade.

O taxista que me trouxe do aeroporto tinha-me já dado um sinal do que havia a esperar. Mohammad Junaid – nome estampado em letras garrafais como mandam as regras – veio do Uttar Pradesh como se adivinhava pelo nome. Chegado há dezasseis anos, é já cidadão americano e está convencido que o novo presidente vai trazer empregos e crescimento ao país.

Quanto ao resto, ele foi vendo alguns ecos aqui e ali, mas não liga muito a essas coisas. Como bom muçulmano que é, sabe que os fanáticos islâmicos que são tidos como intérpretes do Islão pela maior parte da opinião pública ocidental são um perigo, antes do mais para ele, que não tem uma visão totalitária da sua religião e que por isso é considerado ímpio.

Não liga muito ao discurso político e às guerras de insultos e quer ver um melhor futuro para os seus filhos; não quer guerras nem desconsiderações; gostava muito do Obama – que adorava ver na televisão – e diz que deve ser muito duro ser um dia Presidente e no próximo voltar a ser o comum dos mortais.

Mas, para além do meu amigo Mohammad, que vou tentar voltar a ver quando regressar ao aeroporto, a polarização era evidente, já na véspera, quando passeei pelas avenidas entre clubes e hotéis para participar nas múltiplas recepções que são da praxe nesta altura. Tive a fortuna de encontrar duas diplomatas – uma albanesa e outra curda – que me deram uma visão elaborada da América que temos pela frente.

A eleição do novo Presidente da República dos EUA, como explica Pacheco Pereira ao jornal i (Pacheco Pereira: “Trump, de certa maneira, é um revolucionário” ) tem muito de revolucionário. Trata-se da melhor análise que eu já li sobre o assunto, em meia dúzia de linhas – cuja leitura aconselho vivamente – mas que não deixa de necessitar de alguns comentários adicionais.

A primeira questão é que revolução e reacção são, mais frequentemente do que se pensa, duas faces da mesma moeda. Trata-se em geral de movimentos em busca de utopias, e as utopias, das de Platão às dos nossos dias, são por regra movimentos que projectam o passado no futuro mais do que movimentos capazes de visualizar futuros com base na compreensão do presente.

A ideia de que é possível voltar aos bons empregos industriais anteriores à grande globalização dos últimos quarenta anos, que alimenta boa parte do eleitorado, é uma ideia típica desse tipo de utopia.

Trump foi mais revolucionário na vitória que teve sobre a publicidade e a má imprensa, de que ele foi um recordista, e não na sua capacidade de usar a velha ou a nova comunicação, e aqui, discordo do autor da análise.

Ele agarrou num modelo de comunicação jacksoniano – e não penso também aqui que os modelos que Pacheco Pereira vê como inspiradores do actual presidente dos EUA sejam os melhores – que rejeita o elitismo, a linguagem codificada e que reivindica direito de plena cidadania a quem fala com pronúncia da terra e pontapés na gramática, e conseguiu com ele derrotar toda a sofisticada máquina moderna de comunicação. Isto foi talvez o que houve nele de mais revolucionário.

Pacheco Pereira entrega-se, por último, a uma fundamental distinção entre demagogia e populismo; distinção que ele tenta fazer etimologicamente – a meu ver erradamente, porque a única diferença relevante está nos universos gregos e romanos que lhe deram origem – mas que é decisiva conceptualmente.

Não havendo diferenças no significado etimológico, existem diferenças profundas no significado contextual. A demagogia foi pensada na Grécia num sistema que tinha conhecido uma democracia, coisa que dificilmente poderemos dizer da Roma da República ou do Império.

Felizmente, o complexo modelo americano de separação de poderes – contrariamente ao que acontece na Europa – garante que não vai haver nenhuma ditadura. A generalidade dos nomeados da nova administração – que pretendia cortar com o sistema político corrupto – são típicos representantes do que há de mais tradicional em Washington, e nada têm de revolucionário, como aliás nada de revolucionário existiu no décor, mensagem e estilo da inauguração.

A eleição de Donald Trump provou a imensa fragilidade do sistema global em que estamos inseridos e a necessidade de o pensar de forma radicalmente diversa. Os quatro anos que se aproximam podem ser excelentes para fazer essa reflexão.

O maior problema para nós é saber o que vai ser da nossa Europa que finalmente tem o que muitos insistentemente pediam: a sua independência em relação a Washington. Os demagogos europeus que partilham o discurso com Donald Trump são infinitamente mais perigosos e podem fazer descarrilar o nosso sistema democrático. E naturalmente o que vai ser do mundo com os EUA a clamar ainda de forma mais veemente do que com Obama que não querem ser o seu líder.

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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