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Sábado, Julho 20, 2024

Antes que o medo desapareça

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Ninguém se conhece de sobra e muito menos de sobra serão alguma vez as interpretações do mundo. Parece ainda enjoativo e recorrente escrever sobre o fim do planeta, mesmo que a prosa não seja sobre a derradeira catástrofe ou a previsão dos futurologistas, ou das previsões mais otimistas que registam como, para lá da destruição da flora e da fauna, até do património edificado, ficarão crateras e calhaus e uma angustiante secura que já não inquietará nenhum intérprete.

O maior defeito do ser humano será o de não existir como se sonha. Porque nos sonhamos sempre grandiosos, mais espertos e mais talentosos, imortais, é claro, e detentores de uma auto-benevolência que só rivaliza com a nossa auto-admiração.

Seres pequenos de um planeta pequeno, desentendemo-nos com muita facilidade e arquitetamos modelos de sobrevivência, assentes em ritos mais ou menos patéticos, em mitos onde legitimamos mentiras coletivas que disfarçamos sob a forma de imaginários mais ou menos aceitáveis, e cheios de ambições que nos tiram do alcance do nosso semelhante e nos catapultam para a solidão.

A verdade é que destruímos a casa comum e encontramos na fórmula social e económica do capitalismo a estrutura comum que mais nos agrada: Ter! Adquirir! Acumular! E finalmente perecer.

Para que tal aconteça, a esmagadora maioria dos nossos semelhantes não terá, não poderá adquirir, não faz ideia do que seja acumular. Limita-se a perecer, em genocídios mais ou menos organizados, sempre vergonhosos.

Mau estado do mundo

Escreveu-se fortemente, como bátegas de chuva copiosa e capaz de nos naufragar, nos últimos tempos, sobre o mau estado do mundo e como, a curto prazo, as coisas irão piorar. Fizemos isso quando António Guterres foi eleito secretário Geral da ONU ou Donald Trump tomou o poder nos Estados Unidos numa eleição onde tudo o que era patético – a começar pelo candidato e a forma como foi eleito – nos invadiu e perturbou.

Agora, a juntar-se ao resto, as mesmas Nações Unidas que o mesmo Trump desdenha, alertam o mundo para uma realidade conhecida, mas agora legítima na sua voz autorizada: há mais de 20 milhões de pessoas a enfrentar a fome, em quatro países – e o relatório passa por cima de outras realidades a breve trecho igualmente gritantes e esmagadoras.

O coordenador dos serviços humanitários das Nações Unidas veio dizer que o mundo enfrenta a maior crise humanitária desde 1945, isto é, desde o final da II Grande Guerra – com mais de 20 milhões de pessoas a enfrentar a fome em quatro países do mundo. E disse:

“Sem esforços globais coletivos e coordenados, as pessoas simplesmente vão morrer de fome” e “muitos mais vão sofrer e morrer de doenças”. Stephen O’Brien no Conselho de Segurança da ONU, disse isto. Os países em causa são o Iémen, o Sudão do Sul, a Somália e (o nordeste d)a Nigéria.

Segundo o mesmo Stephen O’Brien, a maior crise humanitária está no Iémen, onde “dois terços da população (18,8 milhões de pessoas) precisa de ajuda e mais de sete milhões não sabem de onde virá a próxima refeição. Atualmente há mais três milhões de pessoas com fome crónica do que em janeiro”.

Se ainda estiver a ler isto, se ainda não seguiu para o prato de sopa, o bife, ou para a alegria de outras notícias, fique sabendo que nada há de miserabilismo nesta prosa.

Disse o filósofo: como as nações e os governos, os autores têm o público que merecem – e vice-versa. Mas a oportunidade de registar que ninguém se conhece de sobra e muito menos de sobra serão alguma vez as interpretações do mundo, não se pode desperdiçar.

O mundo da acumulação, da mais-valia, dos tremendos mercados é o responsável por este outro mundo. E os dois são um moribundo incapaz de sobreviver perante o seu reflexo e o reflexo do seu contrário. Criatura, criação e ser criado, não têm o mesmo destino, embora tenham a mesma origem.

De um lado estão os ameaçados, os pobres, os que respiram as suas últimas horas num clima de desespero e medo. Do outro os que têm muito medo que, um dia, o medo do outro lado desapareça.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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