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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Ao sabor dos tempos

Arnaldo Xarim
Economista

Leitores de jornais ou espectadores de televisão, ninguém consegue escapar aos zéfiros ludopédicos que há uns dias assolam o continente europeu e que jornais e demais boletins informativos tudo fazem para não deixarem ninguém indiferente.

Mesmo quem não acompanhe de perto o desporto-rei não pôde deixar de seguir as notícias, que há uns dias fizeram parangonas, dando conta que um craque nacional originou uma descida acentuada no valor de mercado das acções da multinacional Coca-Cola com o mero gesto de afastar umas garrafas daquele refrigerante, no início de uma conferência de imprensa.

Pode-se entender que os meios de informação desportiva e os múltiplos programas televisivos de embrutecimento colectivo dêem destaque e concentrem a sua atenção em semelhante assunto, mas o mesmo não se pode dizer dos restantes meios de informação (como o DN ou o Publico) de quem se deve exigir rigor e cuidados acrescidos, crítica extensível além fronteiras e que abrange até a reputada BBC e o liberal The Guardian.

A notícia, a verdadeira notícia que se deve exigir dos meios de comunicação, será a informação do facto ocorrido – o gesto de crítica ao consumo excessivo de refrigerantes – e a adequada avaliação do dislate que foi a associação directa e acrítica de dois factos isolados – o referido gesto crítico e a queda da cotação bolsista – sem a menor ligação. Isso o fizeram no dia seguinte publicações económicas, como o Jornal de Negócios e o Jornal Económico, com o primeiro a chamar a atenção para o facto da referida desvalorização resultar do desconto da anunciada distribuição de dividendos (as acções transaccionadas a partir dessa data não davam direito a receber aquele dividendo, pelo que o seu preço deve obrigatoriamente descontar esse valor) e o segundo a interrogar-se sobre os reais efeitos do impacto daquele gesto, refirmando a inexistência de qualquer ligação.

Mas que efeito tem a imprensa especializada na explicação ou na correcção dos erros da imprensa dita generalista? e da televisiva? num país que não prima pela literacia e ainda menos pela de natureza económica?

Para a maioria dos portugueses o que vai ficar para a história (a pequena) é que o seu ídolo afrontou a poderosa Coca-Cola e isso custou à gigante multinacional dos refrigerantes cerca de 4 mil milhões de dólares, numa quase repetição do mito do David contra Golias onde o pequeno matreiro derruba o poderoso gigante. A realidade, porém, é bem diferente, mais prosaica e muito menos espectacular que o que nos quiseram fazer crer.

Este episódio recorda-me um outro, que em meados da década de 80 do século passado, circulava entre os especialistas do mercado de capitais. Referia-se na altura a existência de um estudo de uma reputada universidade norte-americana que demonstrava uma relação estrita e directa entre o comportamento do índice da principal praça norte-americana e os resultados da famosa equipa de basquetebol dos Lakers. O estudo estatístico era indesmentível, os ensaios de variação confirmavam que o índice acompanhava consistentemente a qualidade dos resultados daquela equipa, mas isso não fazia qualquer sentido! Salvo a possibilidade dos operadores de mercado, eufóricos com os bons resultados dos Lakers se mostrarem mais afoitos e propensos a assumir riscos, o que em termos de mercados bolsistas significa licitar aquisições de maiores volumes e por preços mais elevados.

A explicação, afinal, não estava em qualquer relação directa entre os dois universos (o da bolsa e o do desporto), antes no factor humano que então ainda tinha um papel determinante na formação das cotações em Wall Street e nas restantes bolsas mundiais.

Extrapolando para a situação caricata agora vivida, importa recordar a permanente necessidade de ler e interpretar a informação divulgada com as devidas cautelas e ponderação que os seus produtores e difusores deixaram de cultivar, obrigando-nos a tudo observar com as reservas necessárias a quem não queira ser desinformado. Esta recomendação aplica-se, inclusive, à imprensa especializada pois muita da actividade bolsista actual assenta na constante variação dos preços (erradamente confundida com volatilidade, que é um indicador da medida da variação) que muitas vezes é obtida mediante a difusão de informação enganadora cujo único objectivo é provocar as subidas e descidas de cotações e assim garantir a actividade de intermediários e transmitir uma imagem deturpada do dinamismo dos mercados.

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