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Quinta-feira, Janeiro 27, 2022

As populações árabes: o factor diferente

Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

Mendo Henriques
Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Católica Portuguesa

A maior parte das observações sobre os conflitos em curso na Síria e no Iémen, apresentam-nas como guerras de civilização ou como choque entre sunitas e xiitas ou como a luta dos diabo islâmicos do Daesh (EI) contra os anjos bons do Ocidente e seus aliados no Médio Oriente.

Na verdade, estas análises simplistas não são nada inocentes e visam consolidar o mito neoliberal americano de que as guerras são de civilizações, e não de interesses. Por sua vez, o mito neoliberal americano foi criado como uma contrapartida ao mito marxista de que a história é luta de classes; alguns dos seus proponentes são, aliás, trânsfugas do marxismo.

Estas análises difundidas por agências noticiosas, revistas ideológicas e com arrasto nas redes sociais, omitem o facto básico da evolução das populações árabes. Cada vez mais jovens, e melhor formados, querem ser senhores do seu futuro. Provaram-no as mulheres ao pôr fim à guerra civil da Argélia, provaram-no muçulmanos e cristãos do Médio Oriente na Primavera Árabe e provam-no agora os refugiados que saem da Síria.

A relação entre os árabes e a Europa é antiga, mas o que agora interessa é que o mundo árabe saiu do seu torpor com o choque de Bonaparte em 1798. Bonaparte foi derrotado pelos ingleses, mas a sua aventura militar permitiu descobrir o poder da Europa e a fraqueza do Império Otomano que então dominava a quase totalidade do mundo árabe, com excepção de Marrocos, o Iémen e o Sultanato de Oman.

Mehmet Ali, vice-rei do Egipto, não descansará enquanto não se emancipar do governo otomano, apesar de vir a cair sob domínio britânico. Viajando pela Europa, os dignitários e estudantes egípcios ficam convencidos que é preciso modernizar para alcançar o renascimento árabe. O renascimento, sim, isso mesmo.

Na segunda metade do século XIX afirma-se um pensamento nacional árabe que atesta um desejo genuíno de renascimento, a Nahda, e o Egipto é o terreno mais fértil para esse fim em que participam muçulmanos e cristãos. A religião diferente não era um problema. A imprensa independente tem papel de relevo.

O retorno ao Islão começa a ser apontado como uma solução compatível com a autonomia política como comprova a Constituição de 1861 da Tunísia. A evolução começa no direito comercial, passa ao direito constitucional e chega com dificuldade ao direito penal e de família.

Contudo, os políticos e os intelectuais árabes de então têm um dilema difícil: como libertar-se da dominação otomana sem cair sob a dominação europeia que traz a modernidade? Durante cem anos não serão capazes de o resolver.

A Primeira Guerra Mundial traz uma ruptura com a Europa Ocidental. Os árabes consideram que a Grã-Bretanha e a França traíram a promessa de criar um grande reino árabe na Península Arábica ao fazerem a partilha Sykes-Picot de territórios. O período entre as guerras é marcado por revoltas na Palestina e na Síria, sempre sufocadas com sangue.

O Egipto é independente desde 1922 e o Iraque desde 1932. Mas o império britânico controla e esse domínio ocidental acabará por desacreditar a monarquia iraquiana, egípcia, líbia, e também a Síria em cujo regime pluralista as minorias nacionais e religiosas se entendiam.

A derrota de 1948 contra Israel irá promover o surgimento de ditaduras que se afirmam progressistas e socialistas; na realidade, entregam o poder a militares ou a clãs. Estes regimes são uma regressão e permitem a corrupção, a injustiça social, o desastre económico. Nasser, Saddam, Boumedienne, Bourguiba, são passado e são violência.

A Guerra Fria e o boom económico facilitarão o surgimento das monarquias da Península Arábica, particularmente na Arábia Saudita. A opulenta Arábia Saudita do petróleo com a ditadura waabita acolhe cada vez mais trabalhadores do mundo árabe e através deles dissemina a sua doutrina religiosa.

Com o final do século XX começamos a ver nos países árabes uma onda de protestos pacíficos, e de seguida cada vez mais violentos como na Argélia em 1988 e cujo pico é a Primavera Árabe de 2011. O recurso à violência está na matriz das nações árabes: guerras de descolonização, guerras contra Israel, Líbano, Iraque e agora Síria. Mas a novidade é que agora existe uma população árabe mais jovem, mais informada, e que quer controlar o seu destino, continuando uma história da libertação que vai com duzentos anos.

Enquanto este factor das populações árabes que querem ser cidadãos for ignorado pelos líderes americanos e europeus, surgirão erros estratégicos. Os regimes árabes, ansiosos por manter o seu poder ou expandir a influência regional, instrumentalizam as populações e impedem o desenvolvimento da cidadania.

Mas o futuro está aí, e este factor é facilmente percebido por pessoas de bom senso – entre as quais avulta o Papa Francisco – que vêem as guerras e conflitos actuais como choque dos interesses e não como pretensas guerras de civilização ou de religião, como imaginam os observadores neoliberais e as cadeias noticiosas que lhes dão abrigo.

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