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Sábado, Julho 20, 2024

Uma de Bronze e muitas de cortiça?

telma-rio2016Paira no ar uma certa desilusão colectiva pela fraca conquista de medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro; na verdade, medalha foi só uma, a de Bronze da judoca Telma Monteiro.

Se olharmos para as duas últimas décadas de Jogos Olímpicos, apenas em Barcelona em 1992 Portugal fez pior no que à glória olímpica do pódio diz respeito, com a comitiva lusa a regressar a casa sem qualquer medalha.

Mas no Brasil, Portugal juntou à solitária Medalha de Bronze um recorde de dez Diplomas Olímpicos, que são atribuídos aos oito primeiros classificados.

E classificou outros atletas e equipas nos dez primeiros lugares. Dois dos atletas mais badalados para a conquista das medalhas eram Nelson Évora e Patrícia Mamona, ambos no triplo-salto. Ora bem, os dois não chegaram ao pódio, mas até fizeram marcas importantes, sobretudo Patricia Mamona (Campeã da Europa) que bateu a sua marca pessoal. Nelson Évora, que já conquistara o “Ouro” nos Jogos de Pequim, não chegou às medalhas, mas fez a sua melhor marca da época, ficando em sexto-lugar na “finalíssima”.

Curiosamente em Barcelona, em 1992, como aconteceu nesta edição de 2016, tinha-se criado uma grande expectativa à volta das grandes possibilidades dos atletas portugueses poderem ser medalhados. Mas a realidade de hoje é bem distante da de 1992.

Hoje, Portugal apresenta atletas e bons resultados em modalidades diversas. Se é verdade que se perdeu (infelizmente) a “velha” escola portuguesa do Atletismo de fundo e meio-fundo, de que o Prof. Moniz Pereira foi grande mestre, também é verdade que houve um extraordinário desenvolvimento noutras modalidades.

Agora, não nos emocionamos com as longas corridas de atlestimo, sem atletas lusos, mas vibramos ao descobrir que no Ténis de Mesa, no Hipismo, no Judo, no Ciclismo, na Canoagem, no Badminton, há gente portuguesa a lutar pelos lugares cimeiros.

Os media — que durante quatro anos, praticamente, esquecem as modalidades desportivas favorecendo o futebol, ou melhor: de três clubes do futebol português — de repente descobrem que há atletas ao virar da esquina prontos para serem heróis olímpicos. E, infelizmente, o Comité Olímpico Português, as federações e os próprios atletas acabam por aproveitar estes raros holofotes mediáticos para também alimentar a ideia que é “muito provável” a conquista de medalhas.

E, claro, os patrocinadores e todo o mercado que gira à volta dos Jogos esfrega as mãos de contente.

Depois, como a coisa correu menos bem, surgem as críticas dos atletas e dirigentes à falta de apoio às modalidades amadoras, à falta de uma política desportiva etc.

Críticas justíssimas, mas que poderiam (e deveriam) ter sido feitas também antes dos Jogos Olímpicos.

Sim porque é justo e urgente reestruturar e fortalecer o Desporto Escolar, que foi quase “enterrado” pelo governo anterior; porque é fundamental que as Universidades aprovem estatutos especiais para estudantes/atletas de alta competição; porque é crucial apoiar em infraestruturas e em meios financeiros as pequenas colectividades, muitas do interior do país, que apostam na formação dos atletas das modalidades que podem chegar às tais medalhas que todos querem.

Feyisa Lilesa, Campeão da Coragem

Em rápido flash-back sobre estas Olímpiadas, a primeira nota que salta à fresca memória é a forma airosa e competente como os Jogos decorreram. Uma vitória para a organização brasileira, quando o world media apontava para uns Jogos Olímpicos caóticos.

Quanto aos grandes campeões, eles são muitos, mas há dois que já eram Reis incontestados e que saíram do Rio Janeiro como Imperadores do Olimpo: o nadador norte-americano Michael Phelps e o velocista Usain Bolt.

Mas o grande Campeão destes Rio 2016 está a revelar-se Feyisa Lilesa, da Etiópia, medalha de prata na Maratona.

Um campeão de coragem, de resistência, que chegou à medalha de prata a cortar a meta com os braços cruzados, à boa maneira dos fãs dos Xutos & Pontapés, e explicou porquê: Porque era o sinal daqueles que lutavam contra o sanguinário regime etíope.

Muitos amigos e familiares seus estão presos. E disse que, no regresso a casa, arriscava a prisão ou mesmo a morte.

Hoje, revelou que a sua irmã e pais não estão presos, mas que só em seis meses foram mortas mais de mil pessoas, a maioria da sua etnia, perseguida pelo governo. “Não se pode falar de política, só podemos apoiar o governo”, revelou ao Mundo este verdadeiro Campeão da Coragem, da Resistência.

Certamente, não faltarão muitos paises dispostos a dar asilo poltíco a este grande atleta e Homem, mas Feyisa Lilesa parece disposto a regressar à Etiópia.

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