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João de Sousa

Quarta-feira, Agosto 10, 2022

Burocracia afasta emigrantes das urnas

A abstenção é desilusão. 15_ambrilhantesobral-ok

 

Nas últimas legislativas, a abstenção dos emigrantes ficou nos 83,6 %. Demora no processo de recenseamento e desinteresse pelos políticos levam a crer que a taxa de abstenção tem tendência a ser cada vez maior.

O Observatório da Emigração estima que, nos últimos quatro anos, tenham emigrado cerca de 400 mil portugueses mas é uma minoria a que se recenseou nos países de destino. Segundo dados do PORDATA, em Junho deste ano, estavam recenseados 270 530 eleitores emigrantes, apenas mais 75 421 do que em 2011. O Tornado falou com alguns emigrantes e a opinião é comum: há muita burocracia para tratar e recensear-se é um processo demorado que tem que ser feito com muita antecedência face à data das eleições.

João Cruz tem 26 anos e trabalha em Amesterdão como webeditor. Emigrou há cerca de um ano e quando tentou encontrar informação sobre onde votar, foi pouca e até contraditória. “Lamentavelmente, não vou poder votar”, confessa e acrescenta que ainda nem tinha decidido que partido escolher: “Não confio nos partidos tradicionalmente eleitos — por serem os responsáveis pela situação actual —, mas temo que o sistema político não tenha maturação suficiente para sermos governados pelos partidos «pequenos»”. João sugere “ porque é que o voto não pode ser digital e remoto e porque é que o recenseamento eleitoral não pode ser automatizado com vista a facilitar a vida de todos?”. Esta alternativa é também colocada por Tiago Fernandes, 23 anos, consultor informático em Maputo: “o sistema podia facilitar a vida às pessoas que estão fora. Porque é que eu com o meu cartão de cidadão não posso votar no consolado do sítio onde estou?”.

Tiago conta que naquela cidade o processo burocrático é “demasiado complicado”, até para se deslocar ao consolado que funciona num horário muito específico, “o que torna difícil para quem tem um horário normal lá ir ”, diz. Tal como João Cruz, gostava de votar e admite “faço intenções de ir votar e sinceramente queria já votar desta vez. Simplesmente ainda não tive tempo de ir tratar de tudo”.

Fabíola Maciel tem 26 anos, é hospedeira de bordo numa companhia aérea e reside actualmente em Roma. Já em Julho deste ano procurou saber, junto do Consulado, o que precisava de fazer para poder votar, mas rapidamente percebeu que deveria ter tratado do assunto ainda antes de emigrar. Fabíola explicou ao Tornado os primeiros de vários passos para se recensear em Roma: Primeiro teria que ter pedido alteração de morada ainda em Portugal, o que tem alguns custos, receber uma carta na sua residência do estrangeiro, levá-la ao consulado e só a partir daí o seu processo seria iniciado. “Resumindo, deveria ter começado a pensar no meu voto quase seis meses antes das eleições”, desabafa.

São vários os motivos que levam à abstenção dos emigrantes. Para além dos obstáculos burocráticos e da demora no processo de recenseamento, há muitos que se desinteressaram pela política nacional.

 Rogério Silva tem 25 anos e é, como Tiago, consultor informático em Maputo. Admite que até se “dava ao trabalho de tratar da burocracia” mas que nem quer pensar na política portuguesa, está farto dos mesmos partidos e afirma “Não acredito na política portuguesa”! Mas não são só os jovens que se desinteressam pela vida política em Portugal. Patrícia Domingues tem 46 anos e é produtora . Está em Luanda há pouco mais de um ano mas ainda “não tive tempo de me informar como se faz para votar quando se vive fora”, conta por isso não vai votar nas eleições do próximo domingo.

Jovens e menos jovens viram-se obrigados a sair do país. Por diferentes razões, a verdade é que muitos não vão votar no próximo domingo. Em 2011, mais de 162 mil emigrantes abstiveram-se nas legislativas e a tendência é que este número venha a agravar-se.

Desinteressados da política em Portugal

Fernanda Fernandes tem 38 anos e emigrou para a Suíça há cerca de dois meses. Não sabia que residindo no estrangeiro podia votar mas já não se interessa há muito pelas eleições: “Não vou votar! Não sabia sequer que o podíamos fazer. Mas já em Portugal não votava e aqui muito menos. Não perco tempo com política”.

Paulo Peixoto tem 47 anos e é pedreiro. Depois de ter emigrado para a Alemanha em 1999, vive desde 2002 em Visp (Suiça). Para votar teria que se deslocar a Sion que fica a cerca de 45 km de casa e não tem como o fazer. Já não se interessa pelos políticos de Portugal, segundo ele “também não iria saber exactamente em quem votar, porque já não confio em nenhum deles”.

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