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João de Sousa

Domingo, Setembro 26, 2021

Cabul vista de Daca

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

É no Bangladesh, na Birmânia, em Moçambique ou no Irão que iremos encontrar a maior base de apoio para o progresso que temos que conseguir, e é com base em propostas e acções concretas que respondam aos seus anseios que isso será possível.

  1. Secularismo no Bangladesh

O Fórum para um Bangladesh secular – organização que milita genericamente contra o fanatismo religioso e especificamente pelo julgamento dos responsáveis pelo genocídio do Bangladesh de 1971, e com quem, por essa razão, colaborei em variadas iniciativas realizadas quer na Europa quer na Ásia do Sul – convidou-me a participar num debate virtual denominado ‘As consequências da tomada do Afeganistão pelos Taliban’ no passado dia 31 de Julho.

Debate animado por dezena e meia de académicos, ativistas e políticos no Bangladesh e alguns outros na Europa e nos EUA, ele marcou a tomada de consciência por parte do mundo muçulmano secular da necessidade de enfrentar a escalada do fascismo islâmico na região rompendo com as baias geopolíticas com que as potências imperais que usam o nome do comunismo o procuram manipular.

Politicamente, a presença mais significativa foi a do secretário-geral do Partido dos Trabalhadores do Bangladesh – a principal organização oriunda da esquerda tradicional surgida em 1980 da fusão de várias organizações, incluindo o Partido Comunista do Bangladesh – e que integra a coligação governamental dirigida pela Liga Awami e a sua líder Sheikh Hasina.

Convém lembrar que o Bangladesh foi o primeiro caso moderno de um genocídio feito em nome do Islão. A Liga Awami que ganhou as primeiras eleições livres realizadas no Paquistão (1970) foi não só afastada do poder pelos militares mas o Paquistão Oriental onde tinha ganho todos os lugares em disputa (e o que viria a ser o Bangladesh tinha mais população e por isso mais deputados do que o resto do país e que é hoje o Paquistão) como alvo de uma impiedosa perseguição em que todos os não muçulmanos e todos os intelectuais seculares foram alvo de chacina.

O Bangladesh nasceu assim da ruptura com a concepção fanática do Islão que, entre outras coisas, considerava e considera que os muçulmanos deveriam abandonar a sua língua materna em favor do Urdu, língua que foi tradicionalmente praticada pelas comunidades muçulmanas da Ásia do Sul e em que as línguas locais – principalmente o Hindi – são moldadas por um quadro linguístico tido por muçulmano (sobretudo árabe mas também persa e turco).

Posto isto, o Bangladesh foi também uma das primeiras vítimas do chamado ‘realismo político americano’, ou a doutrina Kissinger, se quisermos ser mais exactos, que considerava ser do interesse americano apoiar o fanatismo islâmico paquistanês num genocídio que terá causado três milhões de vítimas, a pretexto de assegurar a barreira geopolítica que impediria Moscovo de chegar ao Índico.

Essa posição da diplomacia norte-americana – vivamente denunciada pelo diplomata americano em presença no Bangladesh, e que no histórico ‘Blood-telegram’ nos deixou um dos mais vivos relatos da carnificina – não terá naturalmente contribuído para que os intelectuais laicos e liberais do Bangladesh nutrissem qualquer simpatia norte-americana e fossem facilmente cativados pela propaganda soviética.

A perspectiva da queda de Cabul para as mãos dos Taliban, tacitamente apoiada pela Rússia, não foi no entanto ser acriticamente engolida em função da lógica geopolítica de Moscovo e acendeu uma onda de solidariedade com o povo afegão e de preocupação com o expansionismo jihadista que já antes de 2001 olhava o Bangladesh como uma das suas prioridades.

  1. Duas décadas de cegueira

Na sua análise publicada na ‘Foreign Affairs’ de 22 de Julho, o Embaixador Haqqani relembra uma célebre citação do antigo responsável dos serviços secretos paquistaneses, o general Hamid Gul proferida nos écrans de televisão em 2014: “A história registará que o ISI derrotou a União Soviética no Afeganistão com a ajuda da América. Mas a esse registo ter-se-á de juntar outra frase: o ISI, com a ajuda da América, derrotou a América.”

E Hamid Gul tem toda a razão. Vítima da inércia de uma cultura burocrática que é incapaz de mudar de trajectória, os EUA nunca quiseram entender o que qualquer idiota não poderia deixar de entender: se foi o Paquistão que inventou, financiou e manobrou os taliban, não era possível vencer os taliban apoiando os seus principais promotores (Paquistão). Nem mesmo quando apanharam Bin Laden numa mansão às portas da capital militar paquistanesa foram os EUA capazes de entender a necessidade de mudar de trajetória.

A questão não é apenas militar, mas é de estratégia global. Se era óbvio que havia que manter à distância do Afeganistão libertado dos taliban a mão islamista do Paquistão (ou do Irão, Qatar ou Turquia), os EUA fizeram o oposto, escancarando as portas da academia, das chamadas ONG ou da comunicação social às várias redes islamistas, nunca colaborando com o país que era o mais óbvio parceiro de um Afeganistão livre e democrático: o Bangladesh, principal bastião de um Islão secular depois de 2008.

Mas aqui, é imperioso dizer que a União Europeia – ou em particular o Reino Unido – não foram parte da solução mas antes do problema, nunca nenhum dos Estados europeus tendo tido a clarividência para fazer sentir ao seu aliado transatlântico o que deveria ser óbvio.

À sua escala a União Europeia acentuou o desastre americano. Concedeu ao Paquistão o estatuto comercial mais favorecido (conhecido na gíria por GSP+) atribuído em função dos supostos méritos da sua governação e da sua política humanitária, laboral e ambiental o que não só contribuiu para reforçar a expansão islamista como também para desfavorecer a Índia e o Bangladesh e não fez o que quer que fosse para inverter o rumo dos acontecimentos.

A total incapacidade ocidental para entender o jihadismo leva a que potências rivais, como a Rússia, se apresentem como campeãs da defesa da Europa e da luta contra o jihadismo.

Nesta matéria de Afeganistão nada conseguiu chegar ao nível da Administração Biden que não só abandonou precipitadamente o Afeganistão como se diz, mas partiu sem avisar, fechando instalações a cadeado sem sequer assegurar qualquer transição que permitisse aos afegãos ganhar capacidade técnica de manutenção da sua aviação. Mas é uma pura ilusão pensar que o problema é a Administração Biden, porque ele é muito mais profundo e levará ao colapso do que se convencionou chamar de civilização ocidental se nada se fizer em contrário.

  1. A construção de uma nova aliança humanitária, secular e liberal

O que eu creio que esta iniciativa do mundo muçulmano secular realça é a necessidade de construir uma nova aliança que leve a sério o credo humanitário, secular, liberal, igualitário, e ambiental que o nosso mundo precisa.

Se creio que pouca gente leva hoje a sério a farsa ‘comunista’ em qualquer versão (russa, chinesa, vietnamita ou cubana) e que entende que para além da ditadura e da desigualdade nada há a esperar desse sistema, torna-se não menos importante combater as outras farsas que são cada vez mais a imagem de marca do Ocidente: reclamar a igualdade de direitos de género, mas apoiar a misoginia islamista; reclamar contra a mudança climática para fechar os olhos à guerra contra o ambiente; reclamar contra o racismo anti Negro para fechar os olhos aos massacres em África.

O discurso ideológico ocidental, porventura por razões diferentes mas com a mesma lógica, entrou no domínio da ficção e propaganda e é o maior obstáculo que temos pela frente.

A nova aliança tem de partir do ser humano de carne e osso que sofre na pele a ditadura, o islamismo, a devastação ambiental, a falta de respeito pela sua identidade ou mesmo o mais elementar direito à vida.

É no Bangladesh, na Birmânia, em Moçambique ou no Irão que iremos encontrar a maior base de apoio para o progresso que temos que conseguir, e é com base em propostas e acções concretas que respondam aos seus anseios que isso será possível.

Enquanto Cabul se mantém, é a altura de preparar a resposta da humanidade ao fascismo islâmico que a todos nos ameaça.

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