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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

II . O tempo da respiração

Minha memória,

Recebo tanto e em catadupa.

Os natais que me mandas aos pares, com enfeites escolhidos criteriosamente, nos anos felizes. Chegam ainda com os laços da alma e os nós da festa por desatar. Porque todas as festas têm nós, sabes… E todas as almas têm laços. Às vezes desatam-se e outras vezes permanecem, apenas.

Também recebo muita gente. Gente que por isso não esqueço. Sorrisos que se acotovelam à minha existência e me vão fazendo cócegas por cima dos dias, dos acontecimentos. Gente que chega, vezes e vezes sem conta.

Não sei se já te disse, mas estes envelopes em que te peço que me remetas a vida, cheiram a lavanda. Escolho especialmente para ti os selos de animais de plantas, de lugares bonitos desenhados ao sol.

Lembro-me agora do meu avô. Retirava os selos cuidadosamente dentro de uma grande bacia de água com uma pinça. Fazia isso, no tempos em que já era dono de uma grande parte de ti, memória. Para os colar, quem sabe, nalgum pedacinho ainda de futuro…

Recebo tudo, só não recebo nem as ausências, nem as pausas, nem os silêncios.

O que fizeste com esse tempo de respiração, tão importante na vida eu não sei… Mas se não me mandas os meus silêncios pode ser que nunca mais consiga desabotoar a imaginação que me retempera, devagarinho, os dias.

Há muito barulho aqui, sabes. Demasiado barulho e pouca ausência. Por mais que procure não consigo encontrar nenhuma quietude.

E, eu sei que havia quietude. A quietude é feita de muitos silêncios temperados na ausência. Agora não os encontro… nem sequer um pequeno fio de vento que me percorra os dedos, sozinho a murmurar paisagens.

Manda-mos. Saberei escolher os necessários, para continuar.

Até sempre minha memória.

 


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