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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XXXVII. Natal.

Minha memória,

Escrevo-te com muita urgência. Não é um dia qualquer, é o dia de Natal. A mesa tem que ser feita como anteriormente. Somos quantos, já não me recordo?

Diz-me pois quem vai estar, mesmo sabendo de antemão que não virão. Nunca vêm e ambas sabemos muito bem disso mas  se tu me disseres quem vai estar, eu prometo que ponho a mesa com a toalha de festa.

Vou fazer rabanadas e sonhos de Natal. Um para cada um dos que me disseres que vão estar. Sei que não os comerão. No natal anterior havia possibilidade de virem mas não houve tempo. Neste, dizem que vai haver demasiado tempo mas nenhuma possibilidade….Seja como for a minha mesa de Natal será cheia assim me ajudes, minha memória.

Estarão pois, quantos?

E estarão mesmo que não venham porque é sempre assim no Natal. Eu sei e tu sabes que é assim no Natal.

Tenho que os sentar mesmo não se sentando, tenho que os servir mesmo não comendo, tenho que os acariciar mesmo não os alcançando. Afinal é Natal, como foi Natal no ano anterior e nos outros todos.

São cheio e plenos o meus Natais, de ti, minha memória que me trazes todos e me aconchegas e me proteges e me deixas respirar mais uma vez o cheiro do bacalhau partilhado.

Porei a mesa exactamente como me disseres. Serão bem-vindos todos os que trouxeres contigo.

As rabanadas estarão na cozinha a arrefecer e os sonhos polvilham-se de açúcar na minha cabeça. As pratas estarão areadas e os guardanapos bordados com os nomes deles, de todos eles sem excepção, estarão colocados nos seus respectivos lugares. Lavei-os depois do último Natal conjuntamente com a toalha. Tirei-lhes as nódoas de ausência que são as mais complicadas de tirar e deixei-os arrumados no fundo da gaveta todo o ano.

Estar e vir não é a mesma coisa. Nunca foi a mesma coisa. Há quem nunca venha e esteja sempre. Há quem venha e nunca consiga estar um único momento. É uma espécie de vinda por acaso ou por um motivo qualquer irrelevante. Quem vem assim, quase nunca permanece e normalmente volta rapidamente para de onde veio. A recordação que fica é de um momento fugaz e muitas vezes descolorido.

Ao invés, a permanência e o estar fazem-se quase sempre a cores. Estar, implica o tempo necessário do conhecimento e da partilha e, mesmo que isso já não seja possível porque a volta se deu, fica o tempo cheio de recordações de quem esteve. E fica o espaço impregnado de sorrisos, movimentos e conversas.

No ano passado, lembras-te minha memória, o Hélder esteve. Esteve como esteve todos os Natais e, mesmo naquele em que me disseram que tinha partido para nunca mais voltar, ele esteve.

Depois disso, tem estado sempre. A minha mesa de natal cheira à comida acabada de cozinhar e cheira ao Hélder. Aos cabelos molhados do Hélder.

– Mãe, volto já é só um minuto. Vou até ginásio e volto já!

E o Hélder nunca mais voltou, apesar de estar sempre aqui comigo em todos os Natais e nos outros dias. A mota de encontro ao muro, as sirenes, a angústia…

E agora, o cheiro do Hélder, o riso do Hélder, os passos apressados no corredor. E a voz clara e límpida:

– Mãe posso me sentar aqui um bocadinho ao pé de si?

– Claro que sim meu filho. Senta-te aqui ao meu lado. A mesa de Natal está exactamente como tu gostas. Ainda bem que aqui estás. Passas-me a água sim, filho? Obrigada e Feliz Natal.

 

(Este texto é dedicado a uma leitora atenta e por isso amiga já de longa data, a Concha. E também a todas as mães de filhos ausentes)

 


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