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João de Sousa

Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XXXIX. Eterno retorno.

Minha memória,

Começo a perceber que voltas uma e outra vez. De todas as vezes trazes contigo os factos e os acontecimentos. Muitas vezes, os mesmos factos e os mesmos acontecimentos. E eu recordo-os contigo, uma e outra e ainda outra vez. E, de todas as vezes, as coisasse se me apresentam diferentes apesar de serem iguais. Umas vezes recordo-as mais ajustadas, outras menos concretas e outras ainda como se tudo não passasse de um eterno ciclo de minudências a competir entre elas pela minha lembrança.

E se tudo não passar afinal de um círculo de dança menor, feito de coisinhas que me aconteceram e vão acontecendo? Umas semelhantes e outras, aparentemente diferentes, mas sempre, no fundo delas próprias, tão iguais. Limitadas pela minha existência medíocre, de simples mortal embrulhado em capa de pele, de ossos, de órgãos e pensamentos conectados. De partículas de tempo, absolutamente desgarradas ou, talvez não, que eu vou coleccionando a ponto de as tornar a minha vida.

Nadei, brinquei, chorei, alimentei-me e voltei a nadar a chorar e a alimentar-me. O sol que é sempre o mesmo ou faz de conta que é um mesmo, aparece vezes sem conta e, de todas essas vezes me aquece e me ilumina… Como aquece todos e ilumina todos os outros.

Dizem que somos cada um, autêntico e impossível de replicar. Um que nasce diferente de todos mas com todos. E, que as experiências que temos são únicas, apesar de tantos pores de sol, de todas as memórias que se replicam por aqui e ali.

Percebo cada vez com mais nitidez que é assim: a minha individualidade, a minha história e cada uma das lembranças que a compõem justapõe-se a milhares de histórias e milhares de memórias que acontecessem, simplesmente acontecem. E acontecessem tal e qual de tão iguais porque tudo se passa no fundo, dentro da possível humanidade que não é original, entre uns e os outros. Não tem mesmo quase nada de original essa humanidade. Talvez um ou outro desvio cromossomático, um gosto, um jeito, uma cor.

Um homem existe para que outro possa existir. Só isso. Apenas isso. E quando o outro existir, num futuro qualquer, o homem inicial volta, através da lembrança de quem está.

Voltarás tu também por causa disso, minha memória. Agora e mais uma vez no tempo que me restar ou noutro, meu ou de outro. Um tempo de roupagem diferente mas alicerçado na mesmíssima parcela de gente.

Voltarás a um eu que pode estar aqui, ou exactamente noutro lugar.

A existência determina isso. Só a existência determina isso. A memória volta porque há existência. A memória insiste porque há existência. Porque houve e haverá existência. É nela que tudo se completa, tudo acontece, tudo se transforma e tudo retorna.

Em cada um desses retornos de lembrança, minha memória, está o fundamental. Ou parte do fundamental que é exactamente o mesmo de há mil anos atrás e, será também o mesmo, daqui a outros mil.

A lembrança minha memória, é a nossa única ponte entre o que fomos e o facto de podermos, quem sabe, permanecer.

Volta sempre, minha memória.

 


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