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Sábado, Setembro 25, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XLII. A tua vida é a minha vida.

Minha memória,

Ontem foi só isso, a janela aberta e o meu tempo a escorrer devagar para a tua mão. Percebi que sem isso, não existias. Sem o tempo, sem mim, sem a urgência da janela aberta por causa do calor sufocante de mais uma noite de Verão.

Para ti, seguramente, uma qualquer noite de Verão não fosse dar-se o caso de eu a ter vivido tão intensamente, parado, assim a pensar e a deixar escorregar o tempo devagar, muito devagar…

Viver intensamente não pressupõe fazer muitas coisas, dizer muitas coisas, pensar muitas coisas. Ao invés, é por vezes muito necessário o inverso para se viver intensamente. É preciso espaço e tempo numa cadência precisa, quase quieta para se viver intensamente. As horas não regulam nunca a intensidade da existência e muitos menos, os lugares

Vives porque eu existo. Sem mim, serias um vazio sem corpo, um lugar desabitado, um olhar sem sítio algum para pousar.

Ter olhos e não os poder pousar é sinónimo de cegueira maior. Sem mim, os teus olhos seriam pasmo absoluto.

Não há memória que viva sozinha. Não obstante, desde o preciso momento que existes já não me pertences. Caminhamos em paralelo como se de uma linha de comboio se tratasse. Tu na direita, eu na esquerda.

A minha vida, sempre para diante a construir os teus passos e tu a fugires sempre mais para diante e sem nunca nos alcançarmos, realmente.

Estendo a mão por sobre esta LINHA IMAGINÁRIA que ao mesmo tempo nos une e nos separara e não te alcanço nunca. Vais, sempre em frente e eu contigo. Existes, porque eu sigo nesta roda vida de experiências e coisas  e pessoas  que são a base de toda a tua lembrança.

E se eu parar de repente, será que quedas? E se eu parar para sempre?

Haverá memórias para lá deste caminho? E antes deste caminho?

Quem me lembrou a mim o sorriso, antes mesmo de eu sorrir. Quem me trouxe a urgência para me alimentar, o instinto para sobreviver? Onde foi que me lembrei de SER?

Antes mesmo de existirmos somos nada ou somos pétalas de urgência.

O tempo que conhecemos é o tempo todo ou apenas uma pequena parcela? Antes de ser como somos já existíamos de uma outra forma? E depois? E tu minha memória como sobrevives tu a tantas recordações de mim?

Abraço o tempo, nesta urgência de me poder acontecer e com isso dou-te vida. Dou-te a tua vida que se alimenta de cada pedaço de azul que eu vejo, de cada passo por que me transbordo, de cada silêncio e de cada paragem.

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