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Sábado, Novembro 27, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XLIV. Partilha.

Minha memória,

Oferece as minhas lembranças a quem se tenha esquecido. A quem não se lembre sequer de um único pôr de sol, de uma só felicidade, de um céu azul por cima de um momento de vida ou de um amor.

Leva-as todas, as minhas lembranças arrumadas num pacote e oferece-as. Diz que vão da minha parte. Foram vividas e servirão a quem as puder ou souber vestir.

Vestir as lembranças de outrem pode não ser usual mas acontece. Ou porque se inveja a vida alheia, ou porque se sonha em demasia ou, simplesmente, porque se sonha. Quero pensar que na maioria das vezes é porque se sonha. Ou então porque se imagina. Imaginar é uma outra forma de sonhar.

Os que imaginam são aqueles que conseguem sobrepor algo colorido ao cinzento de todos os dias e matizá-lo de muitas cores.

Se levares as minhas lembranças daqui, minha memória, entrega-as a quem as vista que é o mesmo que dizer que as dês a quem as mereça. Não a quem inveje.

Para se merecer as lembranças de alguém é preciso querer muito viver e nem sempre se ser capaz. O destino, os outros ou as circunstâncias não o permitem.

Sei que há muita gente que não vive coisa alguma, apenas sobrevive. Os dias passam-lhes desalinhados, desajustados, os momentos vazios de fruição. O pensamento numa única direcção: manter-se, conseguir o suficiente para se manter vivo, subsistir. Um e outro dia à espera de poder realmente, viver.

Quem apenas sobrevive não tem nenhum tempo para desejar nada, para sonhar nada, para imaginar nada. O tempo torna-se escravo de um prato de feijão a uma hora certa, de uma cama para dormir sem pensar em coisa alguma além desse mesmo chão.

Viver, torna-se assim uma espera absoluta de um dia melhor, de alguma coisa que ajude a concretizar essa viragem ambicionada. Sobrevive-se para um dia se viver. Lá, no futuro que ninguém pode sequer garantir que venha a existir.

É para esses minha memória que quero que leves as minhas lembranças. Distribui-as como puderes. Umas a este, outras aquele. Deixa para o fim as recordações mais indefinidas. Aquelas que não tem lugar próprio, as que vêm e voltam muitas vezes. Essas, dá-as a quem te disser que não lhe falta absolutamente mais nada senão morrer.

Partilhar uma lembrança é, quem sabe, uma forma legítima de amor. Por mim, minha querida memória estou preparada para as deixar ir.

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