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Domingo, Novembro 28, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

X. Os instantes regressam.

Minha memória,

Eu sei, os instantes regressam, regressam sempre para nos fazer reviver, para nos ajudar a viver, tantas vezes quantas as necessárias.

Sem memória como poderíamos nós construir alguma coisa? A partir de quê? Desde onde? Quem não se lembra de alguma vez ter existido, não existe, de facto.

Quem não se lembra de alguma vez ter feito, não poderá almejar a fazer o que quer que seja.

Quem não se lembra sequer de ter sonhado, tem por causa disso as portas da imaginação cerradas.

É pela memória e pelo seu processo de lembrança que conseguimos afinal progredir. E as memórias não regressam sozinhas nem regressam iguais. Elas adaptam-se, transfiguram-se e reinventam-se. Uma memória de há tanto tempo pode regressar hoje de uma forma e amanhã vestida de cores mais pálidas. Porque a vida se desfez, porque o tempo se sobrepôs, porque os acontecimentos mais funestos de um presente que se impõe, a isso obrigam.

Como vemos afinal cada uma das nossas recordações? Com os olhos de Inverno ou com o fulgor de mais uma Primavera que desponta no quintal da vizinha de baixo e nos faz abrir a janela vezes sem conta?

Há efectivamente um mar de coisas que nos invade de cada vez que recordamos. Um mar de coisas que se sobrepõem e que completam por isso cada uma das nossas recordações.

Somos hoje, neste preciso momento e, esse facto, delimita a construção que fazemos de cada um dos acontecimentos que nos vão chegando do passado que vivemos ou, do passado que pensamos ter vivido.

O importante é que os instantes voltam uma e outra vez na sua missão inequívoca de nos permitir a existência e a continuidade. De nos ajudarem a ultrapassar, de nos darem alento.

Lembro-me hoje, em jeito de Primavera do dia em que caí de uma escada e isso mudou todo o meu Verão. Lembro-me hoje, como me lembrei muitas outras vezes. Em algumas delas, a lembrança fez-me chorar. No entanto, hoje, nesta quase Primavera de novo em flor do quintal da vizinha de baixo, a queda parece-me um acontecimento menor que afinal pode não ter mudado assim tanto esse meu Verão…

Talvez no Inverno que vem, esse meu Verão regresse de novo e será certamente de uma forma diferente. Serão as mesmas escadas e o mesmo Verão que me aconteceu mas o presente, o presente é sempre outro, definitivamente outro.

 


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