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Terça-feira, Junho 25, 2024

“Cemitério e Presbitério de Kochel”

Guilherme Antunes
Guilherme Antunes
Licenciado em História de Arte | UNL

Wassily Kandinsky – “Cemitério e Presbitério de Kochel”
Ao falar deste importante pintor e notável teórico de Arte, lembro-me sempre de uma cara amiga minha que, se por acaso ler estas palavras, perceberá que é nela que penso.

Este mestre da cor via no desenho uma forma de restrição da sua liberdade mental. É a cor que lhe (nos) influência o espírito como uma bala certeira. Não era, como se vê, um florentino.

Este seu trabalho, presumo que menos conhecido do público em geral, aborda uma técnica nova no modo de aplicação da cor, que os “fauve” exercitavam polemicamente em Paris, de onde Kandinsky havia chegado.

Nota da Edição

Wassily Kandinsky (1866-1944)

A sua primeira vontade foi ser músico. Entretanto, formou-se em direito e economia política na Universidade de Moscovo. Aos 30 anos, encantado com um quadro de Monet, abandonou a carreira jurídica. Em 1900, em Munique, formou-se pela Academia Real.

Os seus primeiros trabalhos exprimiam a musicalidade e o folclore russos. Em Paris, onde viveu por um ano, Kandinsky entusiasmou-se pelas artes aplicadas e gráficas, bem como pelo estilo de pintura dos fauvistas. Em 1908, voltou a Munique. Publicou o ensaio Do Espiritual na Arte , em 1911, onde tratou a manifestação artística como expressão de uma necessidade interior. Em 1912, publicou o almanaque Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), nome de um quadro e do primeiro grupo expressionista, cuja vertente é mais lírica do que dramática, em relação ao grupo expressionista Die Brücke.

Voltou à Rússia durante a Primeira Guerra, onde permaneceu até 1921. Acompanhou a Revolução Socialista e como membro do Comissariado para a Cultura Popular fundou vários museus. Reorganizou a Academia de Belas Artes de Moscovo. Foi também professor da Bauhaus a partir de 1922. Escreveu Ponto e Linha sobre o Plano onde reflecte sobre os elementos da linguagem plástica e as suas correlações, colocando os problemas da abstracção.

Em 1933, a Bauhaus foi fechada pelos nazis e, em 1937, os seus quadros foram confiscados. Em 1939, fugiu para a França.

Kandinsky mudou de nacionalidade duas vezes. Inicialmente, após deixar a Rússia e fixar-se em Munique, solicitou cidadania alemã (1928). Mais tarde, com a ascensão dos nazis ao poder, refugiou-se em Paris e, mais uma vez, trocou oficialmente de nacionalidade, tornando-se cidadão francês.

Executa a sua primeira aguarela enquanto primeiro pintor abstracto e teórico de arte não figurativa, em 1910. Influenciado pelo impressionismo de Monet e pelo romantismo da música de Wagner, faz a apologia da força da cor, em que cada tela é “o teatro da cor”.

Claramente espiritualista, tece a sua busca pictórica em torno da procura do próprio conteúdo da arte, da sua essência, da sua alma. As referências ao mundo exterior são, deliberadamente, inexistentes.

O abstraccionismo, inaugurado por Kandinsky por volta de 1910, tem como pressuposto básico a realização de uma arte independente do mundo externo e da realidade visível, ou seja, uma obra composta apenas por elementos puros, como as formas, as linhas e as cores.

Também chamado de “arte abstracta”, este movimento desenvolveu-se em várias vertentes, até passar a ser o traço predominante de toda a produção artística realizada ao longo do século 20.

Os abstraccionistas radicalizaram uma tendência típica das principais vanguardas artísticas do final do século 19 e início do século 20. Desde a invenção da fotografia, o impressionismo havia buscado novas formas de representar o mundo, distanciando-se da mera reprodução “fiel” e “imutável” dos objectos. Os impressionistas procuravam captar as impressões visuais provocadas por estes mesmos objectos em determinado momento, impressões fugidias, que poderiam variar de acordo com a luz, por exemplo. Com a eliminação dos contornos, o impressionismo produziu pinturas em que a luminosidade – e não as pessoas ou as coisas – era o principal tema do quadro.

Os pós-impressionistas e expressionistas, por sua vez, libertaram a cor e a linha de suas funções meramente representativas, exagerando propositalmente as formas, para expressar a prevalência da emoção do artista sobre o mundo real. Os cubistas, a seu modo, também romperam com a ideia da arte como imitação da natureza, ao abandonar as noções tradicionais de perspectiva e volume, retratando os objetos de vários pontos de vista simultâneos, decompostos em figuras geométricas.

Mas, a todos esses e outros movimentos que procuravam um distanciamento e uma releitura do chamado “mundo objectivo”, o abstraccionismo contrapôs uma recusa radical a qualquer espécie de representação. Por outras palavras, não se tratava mais de ver os objectos do mundo com novos olhos, mas de criar um universo à parte, uma realidade autónoma, criada pelo próprio artista. Era isso o que Kandinsky queria dizer com uma de suas frases mais célebres: “Criar uma obra de arte é criar um mundo”,

Além de pintor, teoriza sobre a pintura, sobre o seu objectivo, sobre as suas sensações. Para Kandinsky, o objectivo da pintura é, precisamente, “encontrar a vida, tornar perceptíveis as suas pulsações, estabelecer as leis que as regem.”

Fontes: USP, AulaDeArte

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