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João de Sousa

Domingo, Fevereiro 25, 2024

Chansong, de Tom Jobim

Urariano Mota, no Recife
Urariano Mota, no Recife
Escritor e colunista da Boitempo e do Direto da Redação. Colabora também com Vermelho, Carta Capital e Fórum.

Chansong, de Tom Jobim

Para ser sincero, deveria escrever “agora que a festa acabou, e a ressaca é uma absoluta estupidez, que não deixa a gente ir além de um ‘agora que a festa acabou’….”. Para ser menos burro, procuro ouvir o CD Passarim, de Tom Jobim. Bebel, Borzeguim, Isabella vão passando. É o velho novo Tom renovando o peito da gente. Súbito, paro. Ouço uma voz entre a brincadeira e a seriedade:

“Un, deux, trois”, e vem um coro feminino, e começo a ouvir uma conversa melódica de Tom, entre a brincadeira e a seriedade mais uma vez:

“When I arrived in New York
The immigration officer asked me
Where have you been, Mr. Bim?
Where have you been, Joe?
You’ve been abroad for too long, Mr. Bim,
Haven’t you been?
I got to the hotel exhausted to my room
Having to attend a cocktail
Late that afternoon
And there my boss Nesuhi,
An old friend of Jobim’s, said:
May I introduce you to Gloria?
By all means
Buy all jeans…”

E vem então uma melodia que é um estender-se de Tom ao piano, uma canção que acende na gente uma melancolia tão doce quanto letal:

“I’ve never been in Paris for the summer
I’ve never drank a Scotch with this bouquet
My life is such a mess let’s have a Brahma
I’m happy that you called,
I really feel touché
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has been in Paris com você”

E vêm uns acordes breves do piano que são uma impressão digital de Tom, que remetem a Wave, que remetem a Águas de Março, que remetem à voz nos dedos do Jobim maduro. Então ele retoma, num prolongamento, numa repetição com outras palavras:

“You look so cute there wearing my pajamas
You look so sexy with my pince-nez
Let’s highjack this Concord to the Bahamas
Come on dress up my love
Let’s go to the ballet
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has danced with you
Le pas-de-deux”.

Por que a gente lembra e insiste em lembrar uma canção de versos tão bobos? Esqueçamos por ora a lição antiga de que a letra na música não tem vida própria, autônoma. Esqueçamos que os estruturalistas, quando reclamam a primazia absoluta do texto, são tão medíocres quanto estreitos e amesquinhadores. Esqueçamos. Un, deux, trois. E volta a melodia

“I’ve never been in Paris for the summer
I’ve never drank a Scotch with this bouquet
My life is such a mess let’s have a Brahma…”

Não é nem o “a minha vida está uma bagunça, uma confusão tamanha,  vamos a uma cerveja”, que nos toca de passagem como uma confissão. O que há nesta música é a história que sabemos de Tom, posterior a ela. Como esquecer que Tom morreu em Nova York? Como esquecer que o câncer de bexiga fez com que ele morresse, com toda tecnologia e avanço norte-americano, em um hospital tão longe? Não riam, por favor, mas os artistas são meio bruxos, meio profetas. Sei que esta não é a hora de uma discussão racionalista, para que se prove a vigorosa intuição que possui um artista.

Isso exigiria uma descida até o nascimento da arte nas sociedades mais primitivas, quando a religião, a invocação aos deuses anímicos era ao mesmo tempo uma representação do sonho humano. Isto exigiria ainda o relato da experiência viva, que temos observado ao longo do tempo. Não, agora é começo do ano. O que importa agora é dizer: a brincadeira, a piada de Tom, sobre uma sua chegada a Nova York, traz para nós, seus sobreviventes, a luz da precariedade da vida humana.

“I’m happy that you called,
I really feel touché
Oh, it’s been a long, a very long time
Since a Brazilian has been in Paris com você.”

A alegria de ter um compositor como Tom no começo do ano. A tristeza ao mesmo tempo de saber que a morte é a lei. Oh, its been a long, a very long time que aprendemos que só nos resta ser ternos, que somente a ternura é nossa eternidade. Oh, esse Mr. Joe Bim deixa a gente sentimental a ponto do peito estremecer.

Feliz chansong, amigos.

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