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João de Sousa

Segunda-feira, Dezembro 5, 2022

Colômbia – Por onde andam as Farc depois que deixaram as armas?

A Colômbia atravessa seu segundo processo eleitoral desde o fim da guerra entre o Estado e a Guerrilha, em 2016, por isso é importante saber por onde andam os ex-guerrilheiros. Pessoas que – por uma ou outra razão – precisaram pegar em armas para defender a si próprias e seus territórios, agora nestes últimos seis anos vivem o desafio da reintegração social, política e cultural depois de baixar os fuzis e eleger a palavra como arma.

Em 2016 o então comandante em chefe das Farc (Forças Armadas Revolucionária da Colômbia – Exército do Povo), Timoleón Jiménez (hoje Rodrigo Lodoño), usava uma caneta produzida a partir de uma munição, para assinar o Acordo de Paz. O documento, que também foi assinado pelo presidente da época, Juan Manuel Santos, selava – finalmente – a paz num país que enfrentou 53 anos de guerra, de conflito armado entre a guerrilha e o Estado. Esse gesto deu início a um novo capítulo da história da Colômbia, onde a solução para o problema não seria mais uma resposta militar.

Os guerrilheiros confiaram neste acordo, foram agentes protagonistas da construção desse diálogo, e entregaram todas as armas. Absolutamente todas. A entrega foi monitorada pela ONU. Os containers abarrotados de pistolas, revólveres, fuzis e granadas foram fechados com cadeados imensos, numa transmissão pública, acompanhada ao vivo por autoridades políticas de diversos países, além dos mecanismos internacionais que fiscalizaram toda a ação. Esse dia demarcou realmente o fim da guerra. A partir daquele momento, nenhum guerrilheiro mais poderia recorrer às armas. E então, o que acontece no dia seguinte? Uma nova vida. Mas para isso, são necessárias garantias.

O acordo foi construído ao longo de quatro anos, através dos chamados “diálogos de paz”, um processo realizado em Havana, depois que Cuba gentilmente cedeu seu território, para a conversa acontecer numa região neutra, onde nenhum dos dois lados tivesse alguma vantagem ou vulnerabilidade. Além da ONU, dezenas de ministros e presidentes de outros países acompanharam esses diálogos, a fim de garantir a segurança e legitimidade. Centenas de ex-guerrilheiros participaram das mesas de negociação porque uma pessoa que precisou pegar em armas para se defender tem muito a dizer, e todas precisam ser ouvidas.

A partir deste minucioso diálogo, foi construído um acordo que contempla muitos pontos, entre eles, a reintegração social, a garantia de segurança, direito à terra, ao trabalho, reparação e justiça para as vítimas, entre outros… é um acordo complexo, que para ser efetivado precisa de muita vontade política e compromisso com a árdua tarefa de construir a paz. Um país que atravessou 50 anos de guerra, é uma país dilacerado. Não são só os sobreviventes – milhares deles mutilados de conflito – que precisam de atenção, é toda uma rede de pessoas e comunidades que foram afetadas pela guerra e agora precisam reaprender a viver e ter condições para isso. Os números são assustadores: 53 anos de guerra deixaram 250 mil mortos e mais de 9 milhões de pessoas deslocadas de forma forçada, é o maior deslocamento interno da história das Américas.

O problema foi que logo após o Acordo, a Colômbia elegeu um presidente de extrema direita, Iván Duque, apadrinhado pelo arqui-inimigo das Farc, e amigo do narcotráfico, Álvaro Uribe. Logo de cara, ele disse que não faria nenhum esforço para implementar o acordo. Pior, disse que iria “estraçalhar” o acordo (“hacer trizas”, para ser específica). Essa postura foi um balde de água fria em todo mundo que participou do processo de paz, mas para os ex-guerrilheiros, e para o povo colombiano dos territórios atingidos, foi um verdadeiro atentado contra a vida.

Desde então, várias regiões do país estão absolutamente vulneráveis aos grupos paramilitares e ao narcotráfico. Não se pode dizer que começou uma nova guerra porque agora um dos lados não tem defesa. O que vem acontecendo são verdadeiros massacres. Entre os anos de 2016 e 2020, 421 defensores dos Direitos Humanos e ativistas foram assassinados. Só neste ano de 2022, já foram efetuados 38 massacres, em diferentes regiões do país. Em média, um militante social é morto a cada dois dias. Essas pessoas são trabalhadores sindicalizados, professoras, estudantes, camponeses, donas de casa, trabalhadores de serviços gerais. Diariamente o Indepaz (Instituto de estudos para o desenvolvimento da paz) publica os informes dos massacres, e traz o perfil das vítimas. É gente normal, que está sendo assassinada a sangue frio sem chance de defesa.

Indepaz

A escalada de violência às vezes se intensifica. É o que está acontecendo agora enquanto você lê esse texto. Nos primeiros dias deste mês de maio, um grupo paramilitar autointitulado “Clã do Golfo”, promoveu o que foi chamado de “paro armado”, uma espécie de “greve”, armada. 73 municípios da região Norte do país foram atingidos, e mais de dez departamentos (o equivalente a estados no Brasil). Durante os 3 dias de “greve”, 4 pessoas foram assassinadas, pelo menos uma torturada, jornalistas foram ameaçados, e cidades inteiras submetidas a toques de recolher.

A Comissão que acompanha a implementação do Acordo de Paz, CSM-Comunes, exige que o Estado cumpra o ponto 3.4. do Acordo, que determina “a importância e necessidade do desmantelamento dos grupos sucessores do paramilitarismo”. Este ponto estimula mecanismos para perseguição, judicialização e desmantelamento de tais organizações, para a qual foi criada uma Unidade Especial de Investigação. Mas as ações deste destacamento claramente têm sido escassas, quase nulas. A maior evidência é que o país está com toda a região Norte sob ameaça de um grupo armado neste momento.

Enquanto isso, estão acontecendo as eleições presidenciais. E as Farc além de defender seus próprios ex-guerrilheiros e territórios, também se lança ao desafio de construir a paz pela via política, ocupando cargos públicos. Essa é a história dos Comunes, o partido político que nasceu depois da deposição das armas.

Los Comunes – a palavra como arma

Comunes

Depois de deixar as armas, a antiga guerrilha optou inicialmente apenas por mudar os significado da sigla, e permanecer com o nome Farc, cujas letras agora significavam “Força Alternativa Revolucionária do Comum”. Depois de ingressar efetivamente na vida política como partido, e começar a construir o processo de paz junto à sociedade civil, decidiram simplificar e nasceu o “Comunes”.

São inúmeros os desafios de quem passou a vida com uma mochila nas costas e um fuzil no ombro em meio à selva colombiana, para se reintegrar a sociedade e começar a participar da vida pública. Por isso, um dos pontos do Acordo, garante que o Partido Comunes tem direito a um determinado número de assentos tanto no Senado quanto na Câmara de Representantes, durante três períodos, mesmo sem ter obtido os votos suficientes para ocupá-los. Desta forma, os Comunes têm atualmente 3 senadores e 4 representantes.

Na hora de compor chapa, eles ainda caminham sozinhos. Mas nestas eleições estão ligados ao Pacto Histórico, a coalizão de esquerda que lidera as pesquisas com o candidato Gustavo Petro e a vice Francia Márquez. As candidaturas dos Comunes, como não tem a – digamos – “preocupação” de eleger um candidato, são pedagógicas e servem para ampliar o discurso da construção da paz, e aproximar os ex-guerrilheiros da sociedade. Agendas como a recuperação de territórios atingidos pela guerra para a agricultura, geração de emprego, garantia de segurança e direito à cultura e à cidadania, políticas de gênero e raça são os temas mais abordados.

A paz tem gosto de mel, cerveja e café

Reprodução

Mas e os comunes comuns o que fazem? Aqueles que passaram a integrar a vida civil, mas não entraram para a política, a que se dedicam depois da guerra? Segundo a Agência Para a Reincorporação, uma entidade do governo, quase 13 mil pessoas estão em processo de reincorporação atualmente. Depois de baixar as armas, essa gente precisa ter condições de construir uma vida “normal”. Ter emprego, casa, direito à saúde, educação, transporte, segurança… como qualquer outro cidadão.

Na Colômbia, além da guerra, existe a questão das drogas. Milhares de camponeses se dedicam à produção da folha de coca – e muitos deles porque vivem em regiões dominadas pelo narcotráfico sem condições de desenvolver outra cultura. Para se dedicar a outra coisa, precisam ter segurança e aporte para produzir. Esse também é um dos pontos do Acordo. Segundo dados do governo, há 3.575 projetos aprovados, que beneficiam cerca de 7.600 ex-combatentes, para que eles possam se dedicar a uma nova tarefa profissional, sem armas, ligações com o tráfico ou qualquer tipo de violência.

Desses projetos, nasceram cooperativas inteiras que produzem café, mel, alimentos orgânicos, laticínios e embutidos, roupas, acessórios e cerveja artesanal – que é o produto da paz mais conhecido da Colômbia. Na internet é possível encontrar os perfis dessas novas empresas de economia solidária no Twitter e no Instagram. As lojinhas são muito parecidas às de qualquer metrópole: um design descolado, produtos da moda, os saudáveis da vez. Uma proposta contemporânea, e uma resposta gentil e simpática aos que acreditam que a saída para a guerra é a militarização.

É sabido que a Colômbia produz um dos melhores e mais cobiçados cafés do mundo. Assim, o Café Maru é o café com gosto de paz, que nasce das mãos de ex-combatentes. O mel que vem da montanha também dá sabor a esse processo regado de esperança e cerveja. A La Trocha é a cerveja artesanal produzida por uma fábrica administrada por ex-guerrilheiros da região de Tolima. Roupas e acessórios também estão no rol de produção de quem agora se dedica a construir a paz e trabalha com as mãos para garantir o sustento diário.

Para seguir nesse rumo da paz, a Colômbia precisa de um Senado, uma Câmara e um presidente diferentes do que foi Ivan Duque, políticos comprometido com o Acordo de Paz. Oxalá a chapa que atualmente lidera as pesquisas logre o sucesso, e a América Latina possa, enfim, ser um continente livre de guerra.

Assista abaixo o vídeo com Mariana Serafini sobre o tema:


por Mariana Serafini, Jornalista e especialista em América Latina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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