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Sábado, Novembro 27, 2021

Como o Neoliberalismo tem destruído a governança mundial

Arnaldo Xarim
Economista

As causas de ilegitimidade da governança global parecem cada vez mais semelhantes às forças centrífugas que rasgam uma Europa onde os compromissos políticos dos xenófobos negacionistas do clima e paleoconservadores ameaçam substituir a era do neoliberalismo das décadas de 80-90, promovido pela actuação das Instituições de Bretton Woods que colaboraram activamente no processo de fracturação dos potenciais progressistas do mundo em nome de financiadores internacionais.

Tiveram lugar no passado mês de Outubro as reuniões anuais do Banco Mundial e do FMI, dois organismos internacionais cuja constituição remonta à Conferência de Bretton Woods e ao processo de reorganização mundial ditado pelo resultado da II Guerra Mundial, oportunidade em que os EUA impuseram, contra a opinião inglesa, o padrão dólar-ouro (que aboliriam unilateralmente em 1971), criaram o GATT (General Agreement on Tariffs and Trade, mais tarde convertido na OMC – Organização Mundial do Comércio) e organismos como o Banco Mundial e o FMI com o objectivo de financiar, respectivamente, os grandes projectos de reconstrução e responder a desequilíbrios nas balanças de pagamentos.

Ideologia e financiamento autodestrutivos

Sendo por demais conhecido o papel do FMI nas economias onde lhe foi concedida liberdade de actuação e onde pôde impor a aplicação das linhas programáticas que foram responsáveis pela preparação do terreno para a expansão da globalização a países da América Latina, do Sudoeste Asiático e da Ásia, continuou depois a desenvolver a mesma actividade (embora os seus dois últimos directores-gerais, Dominique Strauss-Khan e Christine Lagarde, tenham dado voz a alguma suavização programática) em países europeus, como a Grécia, Irlanda, Portugal ou Chipre, onde mais uma vez ficou claro o efeito destrutivo daqueles princípios. Este modo de actuação (ou pelo menos os efeitos destruidores das economias mais frágeis) tem sido igualmente aplicado pelo Banco Mundial em várias ocasiões, sendo delas exemplo o que está a acontecer na África do Sul com os apoios à construção das altamente poluentes centrais eléctricas de Medupi e Kusile e a construção de um terminal de gás (em parceria com a Transnet), que se têm traduzido num enorme agravamento do endividamento externo sul-africano sem a adequada contrapartida para o desenvolvimento da sua economia interna.

Enquanto, graças à actuação do FMI e do Banco Mundial e à persistência das teses neoliberais, a dívida mundial continua a crescer e se desvanecem as esperanças que pareceram trazer as mudanças progressivas por meio da política financeira e comercial colectiva dos BRICS, o neoliberalismo à escala global permanece dominante, confirmando um fracasso para o qual muito tem contribuído a actual liderança brasileira claramente alinhada com a administração norte-americana e a sua estratégia isolacionista. A esta realidade soma-se ainda o efeito gerado pelos ‘fluxos financeiros ilícitos’ que movimentam biliões através de centros financeiros offshore assim agravam a situação dos governos com crescentes déficits orçamentais, induzem pressões permanentes para a redução dos custos dos respectivos sectores sociais enquanto aumentam as desigualdades geradas pelas políticas de desregulamentação e liberalização financeira.

O próprio FMI já reconheceu oficialmente que o aumento da desigualdade gerado pela liberalização financeira e pela austeridade pode minar o crescimento (precisamente o que dizem pretender estimular) e ainda que existem fortes evidências de que a desigualdade pode reduzir significativamente o nível e a duração do crescimento… mas nada tem feito para mudar a dura realidade do acentuado crescimento do endividamento mundial.

Por tudo isto, as causas de ilegitimidade da governança global parecem cada vez mais semelhantes às forças centrífugas que rasgam uma Europa onde os compromissos políticos dos xenófobos negacionistas do clima e paleoconservadores ameaçam substituir a era do neoliberalismo das décadas de 80-90 (iniciada nos EUA com Reagan-Bush-Clinton e estendida à Grã-Bretanha com Thatcher e à Alemanha com Kohl e Schroeder, continuada com o neoconservadorismo de George W. Bush nos anos 2000 e pouco ou nada alterada com a passagem de Obama pela Casa Branca), promovido pela actuação das Instituições de Bretton Woods que colaboraram activamente no processo de fracturação dos potenciais progressistas do mundo em nome de financiadores internacionais. Foi assim que os países mais pobres passaram por mais de uma década de austeridade e as crises contínuas que, na mudança do século, atingiram os países com rendimentos médios levaram que o mesmo regime neoliberal fosse imposto por Washington, com o apoio das elites locais, ainda mais profunda e rigorosamente no México, Extremo Oriente, Rússia, África do Sul, Brasil, Argentina e Turquia.

Na década seguinte foi a vez dos assalariados das economias ocidentais verem o processo de deslocalização industrial – com a transferência de equipamentos e da respectiva produção para os países com salários mais baixos – transformá-los em trabalhadores precários reduzidos a serviços mal pagos e subvalorizados, enquanto assistiam a uma repetição das devastadoras acções de poder de Bretton Woods, quando as elites locais concordaram com a solução multilateral para o colapso financeiro mundial, através de um resgate coordenado dos bancos centrais para as maiores instituições financeiras ocidentais e assim abriram caminho a partidos políticos de claro pendor neofascista ou a reacções de natureza xenófoba na forma do Brexit ou de Trump.


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