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Quinta-feira, Abril 18, 2024

Conhecer é só ter ouvido contar

Paulo Vieira de Castro
Paulo Vieira de Castrohttp://www.paulovieiradecastro.pt
Autor na área do bem-estar nos negócios, práticas educativas e terapêuticas. Diretor do departamento de bem-estar nas organizações do I-ACT - Institute of Applied Consciousness Technologies (USA).

Havia um homem tão apaixonado pelas estrelas que para as ver melhor inventou a luneta. Certo dia formou-se uma escola para estudar a sua luneta. Desmontaram a luneta, analisaram-na por dentro e por fora, observaram os seus encaixes, mediram as suas lentes e estudaram a suas características ópticas. Sobre a luneta de ver as estrelas escreveram-se muitas teses de doutoramento, assim como muitos congressos aconteceram para a debater.

Paulo Vieira de CastroToda a gente estava encantada, tão fascinados ficaram pela luneta que nunca mais olharam para as estrelas.

Do mesmo modo, os humanos especializaram-se no acessório esquecendo o que é estruturante na nossa vida: ser humano…

Conclusão: há muito que deixamos de nos encantar com as estrelas.

Esta é uma curta história, de inspiração popular brasileira, que tão bem retrata a forma como – simplesmente – nos esquecemos da nossa origem, do nosso ser, lembrando-nos o quanto isso é inumano. Foi nisto que uma certa ciência nos transformou…

Não resisto, ainda, a perguntar-lhe: quando foi a última vez que olhou as estrelas?!

O que nos faltará, então? Que cada um de nós faça a sua parte…

O que é fazer a minha parte?

Nas escolas, nas famílias, nas empresas,…, perdemo-nos na ânsia de um conhecer que se transformou na mais maternal das canções de embalar. Alberto Caeiro bem que nos avisou, afirmando “ Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez. E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar”. Deste modo se constrói , dia após dia, um mundo em contra-mão. E com ele o edifício da ciência e da moralidade do homem moderno.

Mas, contar histórias é a melhor forma de permitir que cada um aproveite a seu jeito os ensinamentos por tantos partilhado. Porque estamos em tempo de férias continuarei a contá-las. Isso é já fazer a minha parte. Então…

Perante um medonho incêndio, todos os animais fugiam apressadamente do mato em chamas. Quando o hipopótamo passou perto do lago, reparou que um colibri enchia o seu pequeno bico de água, preparando-se para a lançar sobre o imenso incêndio.

O hipopótamo parou e, com um sorriso de orelha a orelha, perguntou-lhe incrédulo. O que estás a fazer?!

O colibri respondeu de forma serena. Eu? Eu estou a fazer a minha parte…

colibri

Assim, a paz que procuramos estará, sempre, na consciência de ter feito a nossa parte, realizando cada um de per si o seu centro de valores. Isso será suficiente para mudar o mundo. Fazer a nossa parte… Só deste modo deixaremos de ser essa parte da praia onde o mar não mais chegará…

E, como poderemos juntar o que já está junto?

Coloco outras questões a este respeito, isto com o intuito de ajudar a entender uma responsabilidade que é só nossa. Para isto faço a adaptação de uma outra velha história.

Existe o frio? Claro que sim todos nós já o sentimos!

Não, o que existe é unicamente o calor, o frio é a ausência de calor.

E, o escuro existe? Claro que sim. Vejamos… o escuro é simplesmente a ausência de luz. Só a luz é passível de ser estudada; o escuro não existe.

Finalmente, existe o mal? Claro que sim, bastará ver o estado do mundo. Não! O mal não existe, apenas poderemos afirmar que este é resultado da ausência do bem. Por si mesmo – o mal – não subsistiria.

E, qual será a responsabilidade do ser humano ante tudo isto? Eu diria que é total!

Tudo o que é realmente nosso é preexistente à natureza do mundo. Trata-se de algo que está desde sempre em nós. Logo, a infelicidade, o sofrimento, a posse,…, apresenta-se-nos, agora, como uma criação exclusiva dos homens e das mulheres. Não existem na natureza por si só. São afectos de uma mente inquieta.

Do mesmo modo, a condição de ser humano é algo que está presente quando nascemos. Mas, estar vivo é diferente de existir; dizem. Este será o próximo desafio? Não estou convencido disso…

Afinal, se tudo depende só de mim por que seria diferente consigo? Carlos Drummond de Andrade imortalizou este sentido para a vida no seu poema “Definitivo”, lembrando-nos que a nossa dor não advém das coisas vividas, apenas das coisas que foram sonhadas e não cumpridas.

Enquanto cada um de nós sonhar sozinho, continuaremos – simplesmente – a sonhar. Pelo contrário, sonhar em conjunto com outros é já estar perante a única realidade que conheço: ser humano.

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