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João de Sousa

Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

Conspiracionismos

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

É certo que na maior parte dos casos de conspiracionismo, quem inventa as conspirações acredita também nelas, até porque a melhor maneira de propagar uma crença é começar por ser seu crente.

  1. Da conspiratziya ao conspiracionismo

A conspiração é provavelmente tão antiga quanto a desinformação. Ela pressupõe a concertação e o silêncio ou mesmo a desinformação. Ela ocupa, por exemplo, um lugar particularmente importante na história de Portugal, tendo as suas três dinastias nacionais resultado de conspirações, a última das quais fruto do que a história viria mesmo a designar como ‘conspiração de 1640’.

A crónica de Fernão Lopes relata-nos como o Mestre de Avis conspirou com Álvaro Pais para tomar o trono usando como instrumento central um clássico da desinformação, reclamar que o Conde de Andeiro atentava contra a vida de D. João com o intuito de mobilizar a população para fazer o inverso.

O actual regime democrático, como foi também o caso do regime republicano, resultou igualmente de outra conspiração, embora se dê pouca atenção à importância que nela tiveram os serviços de informação, não se salientando que personagens cruciais do evento, como Otelo ou Eanes, têm em comum a sua presença nesses serviços.

A ‘conspiratziya’, contrariamente à ‘dezinformatsiya’ e desinformação, não esteve, portanto, na origem da expressão ‘conspiracionismo’, mas é verdade que a ‘conspiratziya’ soviética elevou o conceito a um estado de espírito e prática generalizados.  Trotsky na sua autobiografia ‘A minha vida’ (1930) fala das regras e do método da ‘conspiratziya’ como elementos essenciais do modo de vida soviético.

A ‘conspiratziya’ soviética a que Trotsky faz referência implica a dissimulação como norma de sobrevivência ou mesmo de vida, mais do que ao método usado para subverter a ordem vigente, como nos exemplos nacionais que referimos, em que se tratava de subverter as regras dinásticas ou de regime em vigor.

Em Portugal, durante o antigo regime – sem prejuízo do grau menos acentuado – havia também um estado de espírito generalizado de ‘conspiratzyia’ do tipo soviético, ou seja, a noção de que a expressão de qualquer ideia sobre temas sociais, e sobretudo políticos, tinha de ser feita de forma conspirativa, sob pena de a PIDE, que estava realmente por todo lado, mas que se imaginava ainda mais presente, tomar nota, com consequências negativas nas célebres fichas que poderiam mesmo levar à prisão.

Este sentimento generalizado da necessidade permanente de conspirar está aliado a um outro que é o de o poder (o Estado, os que governam, ou mais prosaicamente o ‘eles’ que perdurou até aos nossos dias em Portugal) estar permanentemente a conspirar para esconder a verdade, o que é o germe do conspirativismo.

Tal como a ‘conspiratzyia’, o conspiracionismo assenta por vezes em factos insofismáveis, exagerando a sua dimensão, alterando o seu contexto ou generalizando factos de forma abusiva. Entre nós, é claro que muito do que se passou na guerra colonial foi escondido, ou no mínimo deturpado, e que, por exemplo, as consequências catastróficas das inundações em Lisboa de 1967 foram escondidas do conhecimento público (a cassete do ‘climate change’ ainda não estava disponível para Salazar se despir de responsabilidades).

Em universos privados de liberdade de expressão, a conspiratziya e o conspiracionismo medram de forma irresistível, semeando a dúvida sobre tudo o que é dito e levando mesmo à criação de mundos paralelos, que podem ser mais ou menos reais, bem caracterizados em obras como o 1984 em que se tornava necessário reescrever a história a intervalos regulares.

Entre as memórias mais antigas que eu tenho de conspiracionismos populares, está a da viagem do homem à lua que, de acordo com a minha tia em Barcelos, como de acordo com a vox populi maioritária na ‘venda’ local, não passava de encenação. Para minha surpresa, constatei recentemente que essa crença conspirativa, velha de mais de meio século, continua de saúde e recomenda-se, existindo um infindável número de histórias que vão nesse sentido (aparecem aos magotes na web) e existindo quem nelas acredita em Bruxelas.

A generalidade do conspiracionismo contemporâneo tem os EUA como alvo, e centra-se nas mais diversas histórias de horror; a mais omnipresente é provavelmente a de a derrocada dos edifícios do 11 de setembro se dever a dispositivos explosivos que neles estavam integrados e não ao impacto dos aviões assaltados pelos jihadistas.

  1. Do conspiracionismo psicopático ao conspiracionismo universal

O conspiracionismo torna-se psicopático quando se alia ao justicialismo. Aqui, não só se atribuem responsabilidades por crimes reais ou imaginários a alguém, ou a um grupo humano em particular, mas essa atribuição, que é dada como segura, conjuga-se à necessidade de punir esses conspiradores.

O antissemitismo é de longe a principal forma assumida pelo conspiracionismo psicopático, existindo outras, como por exemplo a da misoginia sob coberto de anti-bruxaria.

O pogrom de Lisboa de 1506 é um entre um número infindável de outros que antecederam o holocausto, o exemplo maior do resultado do conspiracionismo psicopático. A ideia de que o holocausto foi o ponto final do antissemitismo é profundamente errada. A perseguição aos judeus continuou ininterruptamente após a segunda guerra, quer na Europa quer no Médio Oriente, usando de resto os mesmos argumentos usados pelo nazismo.

Actualmente, o antissemitismo ocupa um lugar especial no jihadismo, particularmente no iraniano, que tem no extermínio de Israel o seu ponto político capital.

Mesmo quando não ocupa o lugar principal, o antissemitismo é um condimento frequente do conspirativismo. Por exemplo, a última purga de Estaline – todas elas foram organizadas numa lógica de conspiracionismo psicopático ­– tinha por alvo alguns dos mais proeminentes médicos russos (doctor’s plot) sendo que um dos ingredientes da conspiração passava pelo facto de pelo menos seis dos acusados serem judeus. O conspiracionismo do 11 de setembro vem também normalmente associado a reclamadas conspirações sionistas.

Tudo isto nos leva a olhar o conspiracionismo como algo de extremamente perigoso e justifica a grande atenção que é dada ao tema, alguma por via académica, a maior parte por via da comunicação social ou das instituições.

Paralelamente a isso, a acusação de conspiracionismo passou a ser a regra com que os poderes se defendem de todas as acusações, mesmo das que são mais evidentes e difíceis de contestar. A título de exemplo, a questão da armadilha da dívida chinesa – a que dediquei recentemente um artigo no ‘Equal Times’ – é tratada pela imprensa oficial chinesa ou pela imprensa pró-chinesa no Ocidente como uma ‘Teoria da Conspiração’.

Do mesmo modo, tornou-se regra denominar de conspiracionista ou mesmo negacionista qualquer pessoa que ouse discutir o bem-fundado de qualquer dos alicerces das doutrinas institucionais sanitárias ou climáticas.

O conspiracionismo tornou-se assim contemporaneamente incontornável. Por um lado, está associado aos maiores crimes da era contemporânea, por outro lado, tornou-se uma acusação recorrente destinada a abafar qualquer pensamento que ponha em causa normas estabelecidas.

  1. A redução psicológica do conspiracionismo

Por norma, a melhor maneira de ter em conta algo tão disseminado e importante para quem quer que faça análise política como é o conspiracionismo é olhar para a literatura académica sobre a matéria.

Fazendo uma pesquisa na rede, aparece-nos em lugar de destaque um trabalhos académico relativamente recente e que tem por título ‘Compreender as teorias da conspiração’. O trabalho tem muito impacto, está bem redigido, cita abundantes fontes, e é um pouco paradigmático da noção prevalecente de ‘conspirativismo’.

Passando por cima de questões terminológicas – não penso fazer qualquer sentido tratar do conspirativismo como ‘teorias da conspiração’ – vejo vários problemas essenciais na abordagem  proposta.

Em primeiro lugar, dá pouca importância à distinção essencial a fazer entre as conspirações reais, as completamente inventadas e – talvez a maioria e as mais importantes – as que se baseiam em realidades ou que são mesmo parcialmente verdadeiras, mas que são contaminadas por elementos ficcionais. Para justificar essa opção, os autores circunscrevem o conspirativismo à realidade norte-americana e ao poder político, afirmando, correctamente, se pensarmos apenas nesse pequeno universo, que a conspiração é improvável.

Entre outros problemas, esta aproximação parte de um conceito reducionista de uma esfera política autónoma da esfera da sociedade civil. O essencial da política na vida democrática contemporânea só se entende se ultrapassarmos esta dicotomia Estado versus sociedade civil e se entendermos que a política se faz por grupos de interesse que flutuam entre a estrutura política e a da sociedade civil.

Em segundo lugar, esta aproximação olha apenas para o elemento passivo do fenómeno conspirativo, ou seja, quem crê na conspiração, esquecendo o lado activo, de quem inventou a conspiração e com que objectivo.

É certo que na maior parte dos casos de conspiracionismo, quem inventa as conspirações acredita também nelas, até porque a melhor maneira de propagar uma crença é começar por ser seu crente.

Contudo, reduzir o fenómeno à dimensão psicológica de quem acredita na conspiração, colocando de lado o elemento essencial de saber quem propaga a conspiração e com que lógica o faz, é eximirmo-nos de compreender a questão na sua totalidade.

Como não se dá qualquer atenção à distinção entre conspirações reais e inventadas, total ou parcialmente, os exemplos seguidos são necessariamente relativos a um universo de invenções conspirativas óbvias, e não às que são mais intrincadas.

Não surpreendentemente, conclui-se assim que as pessoas mais propícias a cair na teia do conspirativismo são pessoas menos propensas a julgamentos racionais, quer por falta de capacidade quer por atitude, psicótica ou não. A conclusão está implícita na forma como o problema é colocado. Se olharmos apenas para o conspirativismo simplista, iremos encontrar sobretudo mentes simplistas.

Posto isto, apesar das suas insuficiências, teremos de ter os trabalhos académicos em conta sem nos reduzirmos a eles. Em qualquer caso a análise política séria – a que não se limita a apresentar de forma mais apetecível o que é tido já por evidente – tem de considerar sempre o fenómeno conspirativo.

E partindo também do princípio de que ninguém está imune ao fenómeno e que pode, portanto, dispensar uma análise crítica sobre a sua atitude e o seu ponto de vista.

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