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Segunda-feira, Julho 4, 2022

Corrupção: de qual mesmo estamos falando?

Alex Saratt, Rio Grande do Sul
Alex Saratt, Rio Grande do Sul
Professor das redes públicas municipal e estadual em Taquara (RS), 1° vice-presidente estadual do Cpers, Secretário de Comunicação da CTB RS e Secretário Adjunto da CNTE

Segundo o Oxford Languages, corrupção é uma palavra que significa “deterioração, decomposição física de algo; putrefação” ou “modificação, adulteração das características originais de algo”. Outras definições do termo são mais diretas e a relacionam com fenômenos sociais, apontando o mesmo uso do sentido para aspectos morais, políticos e econômicos.

O arrazoado é necessário para que tomemos o teor original e próprio da expressão e consideremos sua aplicabilidade naquilo que interessa ao debate societário. Por certo, nenhuma pessoa em sã consciência acatará a ideia de corrupção no que toca ao erário público ou mesmo em relações econômicas e financeiras privadas.

Porém, cabe abrir o olho para um outro tipo ou forma de corrupção que – sem deixar de dar prejuízos ao conjunto da população, posto que corre frouxa nos bastidores do poder – atinge e afeta o sistema de princípios e valores de determinada formação social e, principalmente, sua projeção enquanto futuro e modo de vida.

No Brasil, a temática “corrupção” acompanha o país e o povo desde tempos quase imemoriais. Há quem diga que faz parte da gênese e psiquê do nossos ethos. O fato, desviando das análises históricas mais profundas e detalhadas, é que nos tempos modernos a corrupção ocupa espaço e importância na constituição de uma mentalidade e ideologia.

No período mais recente, a corrupção moveu sentimentos e atitudes individuais e coletivas. Tivemos em meados dos anos 1990 um presidente afastado de cargo e funções por denúncias comprovadas do ilícito. Nos anos 2000 em diante, o discurso da corrupção atacou impiedosamente um partido cuja bandeira da lisura, transparência e ética na política foi motivo de crescimento de sua popularidade e confiança.

Ainda que no terreno pantanoso das acusações sem provas, mentiras repetitivas e pesos e medidas diferentes conforme conveniências, impossível negar o sucesso da investida feita pelos adversários e inimigos.

Calcou-se uma fixação de que a corrupção política e econômica tinha face, nome, sigla, cor, personagens e práticas. Pior: criou-se uma falsa percepção de que se tratava de caso único. O mainstream midiático, jurídico e político agiu com maestria, competência e poder inclemente para forjar e inculcar tal acusação como se verdade fosse.

“Roubalheira!”, como nunca houvesse acontecido. Um escândalo de dimensões apoteóticas, quase apocalípticas. Motivo de todos os males e desgraças. A miséria e a fome se explicariam somente por isso, sem nenhuma relação com qualquer estrutura de riqueza ou poder anterior. Fez efeito e angariou seguidores, seja pela ignorância, seja pela credulidade, seja pela mesquinhez, seja pela falta de caráter, seja pela tirania.

Veio, então, um “novo” governo. Primeiro, um transitório, comprometido com o desmonte e destruição do legado de avanços e conquistas populares e democráticas; depois, articulado para passar o bastão a um grupo orgânico da burguesia, do capital e do liberalismo sui generis tupiniquim. Mas havia uma pedra no meio do caminho. Ao abrir a caixa de Pandora, libertaram-se demônios que fugiram completamente ao controle. Vimo-nos diante da besta fera do fascismo, em que na sua versão particular nada mais é do que a estruturação e sistematização do passado colonial, escravocrata e latifundiário carregado de exploração, opressão e exclusão.

O que temos hoje para enfrentar é, portanto, uma variante da corrupção que não satisfeita em saquear e dilapidar o patrimônio público e os recursos nacionais, nem minimamente capaz de compadecimento com a vida das pessoas, advoga um feixe de concepções e ações fundados no obscurantismo, no fundamentalismo, no negacionismo e na violência. A cruza de darwinismo social, apartheid, total ausência de empatia e solidariedade, ódio patológico, distorção dos cânones humanistas universais, viceja e vigora como câncer.

É isso ou não uma corrupção – enquanto putrefação e tragédia – daquilo que duramente se estabeleceu como uma perspectiva e padrão da vivência e sociabilidade? Mais do que retrocessos pontuais ou danos materiais, a maldade elevada ao altar supremo da lógica de funcionamento social não lhes parece uma derradeira ferida de morte aos feitos alcançados em meio a lutas heroicas do povo? A consolidação dessa visão de mundo não é um perigo real de desmanche dos últimos e mínimos elementos de nosso contrato social?

Diante de tudo isso, com a certa compreensão de que o momento vivido traz consigo algo nefasto, maléfico e destrutivo, urge registrar: não temos tempo! A corrosiva corrupção representada pelo Bolsonarismo precisa ser objeto de reflexão, decisão e movimentação, sob pena de que o momento a seguir seja o nosso velório e funeral enquanto Estado, Nação e Povo – sem choro, nem vela, tampouco sepultamento. À luta!


Texto em português do Brasil

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