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João de Sousa

Segunda-feira, Julho 4, 2022

Presidenciais Colombianas 2022: Análise à 2ª Volta

João do Vale de Sousa
João do Vale de Sousa
Doutorando em História, Estudos de Segurança e Defesa num programa conjunto ISCTE-IUL/Academia Militar

Quem ganhou e quem perdeu na jornada eleitoral histórica ocorrida no Domingo na Colômbia.

Como numa eleição há vencedores e perdedores seleccionámos alguns aspectos e protagonistas para analisar a vitória da dupla Gustavo Petro, eleito Presidente, e Francia Márquez, eleita Vice-Presidente, sobre o eng.º Rodolfo Hernández e Marelen Castillo.

A maior vencedora destas eleições foi a Democracia. A participação dos eleitores foi de quase 60%, tendo subido em relação à 1ª volta (55%). Isto fez com que estas eleições presidenciais tenham sido as mais concorridas no corrente século. Tendo perdido apenas por cerca de 3% (700 mil votos), Rodolfo Hernández reconheceu a derrota publicamente. O actual Presidente Iván Duque (Direita) deu os parabéns aos eleitos, declarando começar a trabalhar de imediato com a equipa de transição de poder do vencedor. Por seu turno, Petro apelou a um grande diálogo nacional.

A vitória de Petro mostra que é possível a ascensão da Esquerda ao poder por meios pacíficos. A via da violência armada ficou definitivamente deslegitimizada. O sistema político colombiano mostrou que já não está fechado aos candidatos e às propostas mais à Esquerda. A paz é, assim, uma das grandes vencedoras. Não só porque Petro promete impulsionar o Acordo de Paz do Estado com as FARC-EP, como a sua vitória é também daqueles que, através de processos de paz, abandonaram as armas em definitivo, dedicando-se a alcançar o poder unicamente por meios não-violentos. É uma vitória da paz sobre a guerra e das vítimas. Uma das primeiras consequências do êxito da candidatura do Pacto Histórico foi o Exército de Libertação Nacional (ELN) — que viram o seu projecto de tomada de poder pela violência politicamente derrotado no Domingo — já ter declarado interesse em retomar os diálogos de paz com o próximo Governo, após a interrupção em 2019 depois do atentado à Escola de Polícia.

O ex-Presidente Juan Manuel Santos é igualmente um vencedor, pois teve a audácia de fazer a paz com a guerrilha das FARC-EP, em 2016. O fim dessa guerrilha marxista permitiu uma mudança significativa da atmosfera política, fazendo com que ela não seja dominada pela guerra. Isso levou a uma mudança no modo como os colombianos avaliam a Esquerda, fazendo com elas deixassem de ser encaradas como forças malignas. É uma derrota para os que apostaram na estigmatização da Esquerda e na sua justaposição às guerrilhas anti-estatais. Por isso, defenderam, abertamente ou de uma forma camuflada, o ´Não’ ao Acordo de Paz com as FARC-EP, materializado no Plebiscito de 2016, preferindo a via guerrista. Sem um inimigo guerrilheiro forte, como chegaram a ser as FARC-EP, a população perdeu o receio de votar por uma candidatura esquerdista.

Gustavo Petro, depois de ter tentado em 2010 e 2018, foi o grande vencedor. Conseguiu aumentar consecutivamente a sua votação desde as Primárias (4,5 milhões de votos), em Março, passando pela 1ª Volta (8,5 milhões), em Maio, até agora (11,3 milhões). A votação que obteve é superior à conseguida por Iván Duque (10,37 milhões) em 2018. A sua vitória é o culminar de um longo trajecto político, que teve início no final da década de 1970 com a militância no grupo guerrilheiro M-19 (Movimiento 19 de Abril), tendo posteriormente passado pelo Congresso como Representante e Senador, e Presidente da Câmara de Bogotá. Mostra como é possível a plena integração social e política de um ex-guerrilheiro. É, deste modo, um exemplo de esperança numa plena reintegração para os actuais ex-guerrilheiros das FARC-EP.

Estrela maior em ascenção no panorama político é a Vice-Presidente eleita Francia Márquez. Será a primeira mulher afrodescendente a ocupar um cargo tão elevado naquele país. É uma enorme vitória para ela, pois teve origens modestas e árduas, e para todos os que como ela têm sido marginalizados e esquecidos pelas élites. A sua contribuição para o triunfo da dupla não é de somenos. A costa do Pacífico, de onde é originária, contribuiu significativamente para a vitória. Perfila-se, desde já, como uma das mais fortes candidatas a suceder a Petro em 2026.

É também uma vitória do povo sobre as élites. Os movimentos sociais, ambientalistas, indígenas, sindicais, estudantis, camponeses, afro, femininistas e LGBT+ apoiaram Petro e Francia. Houve uma rejeição dos que têm governado e das suas políticas, exprimindo um desejo de mudança. Por outro lado, os grupos mais conservadores, no plano político e social, e que batem-se pela imutabilidade do sistema, que apoiaram o eng.º Rodolfo, foram derrotados. Donde, esta é uma vitória da mudança e pela mudança.

Desta vez a esperança foi capaz de derrotar o medo. Os colombianos foram capazes de ter a audácia de não ter medo de arriscar em quem defende o progresso social. Ao invés do que sucedeu em 2018 a Petrofobia não venceu, nem o Anti-Petrismo. Mesmo tendo em conta que muitos dos que votaram em Rodolfo Hernández votaram seguramente mais contra Petro do que a favor do engenheiro. De certa maneira, o futuro venceu o passado ou, de outra forma, o progressismo venceu o conservadorismo.

Finalmente, uma palavra para aquele que tem sido o político mais importante neste século na Colômbia: Álvaro Uribe. A figura tutelar da Direita colombiana, desde que abandonou o Senado, em Agosto de 2020, devido a acusações de suborno e intimidação a falsos testemunhos, viu a sua estrela política empalidecer. É um dos grandes derrotados de Domingo e, com ele, toda a Direita, pois, neste momento, não se vislumbra uma figura capaz de liderar a oposição ao Presidente eleito.

A tarefa que avizinha-se para a dupla vencedora da 2ª volta das eleições Presidenciais na Colômbia não é fácil. Gustavo Petro e Francia Márquez têm que lidar com um número significativo de compatriotas que não só não votaram neles, como os teme. E têm que ir de encontro à esperança na mudança de quem deu-lhes o triunfo eleitoral. A partir de 7 de Agosto, quando tomarão posse, terão a responsabilidade de governarem para conseguirem tranquilizar os primeiros e corresponder às expectativas dos segundos. Oxalá não defraudem nem uns nem outros.

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