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Quinta-feira, Junho 13, 2024

Cresce a rebelião contra o império do dólar

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

É historicamente conhecido o facto de tempos de instabilidade não gerarem apenas incerteza e desconfiança. A actual conjuntura não fugirá a esta regra e a crer em alguns acontecimentos recentes até poderemos estar em vias de assistir a profundas e decisivas mudanças nos equilíbrios internacionais.

Embora a imprensa nacional concentre todas as suas atenções na polemizada visita de Lula da Silva, repetindo até à exaustão a liberal ideia das “afirmações vergonhosas”, uma leitura mais atenta da imprensa nacional e internacional revela, afinal, que existe muito mais que estes conhecidos chavões bacocos.

Assim, depois do recente encontro dos parceiros da NATO (o chamado Grupo de Contacto para a Defesa da Ucrânia, liderado pelos EUA e que integra actualmente cerca de meia centena de países) na base militar americana de Ramstein, instalada no estado alemão da Renânia-Palatinado, onde o inevitável tema foi o do aumento do apoio militar à Ucrânia – com os ucranianos a pedirem aos aliados ocidentais o envio de mais caças e mísseis de longo alcance e onde o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, recém regressado de uma visita a Kiev, fez coro com a necessidade de vencer a relutância dos aliados em entregar as “armas vitais” (na terminologia de Kiev), que antes eram blindados mas, na contínua escalada armamentista, são agora armas de longo alcance (aviões e mísseis), armamento que o Kremlin já avisou que constituirá um limiar perigoso – ficámos ainda a saber que este continua a ser um assunto que divide os aliados, pois nem todos os membros daquele Grupo de Contacto parecem convictos de tal necessidade, mesmo perante o contínuo anúncio da prometida contra-ofensiva.

Mas enquanto isto, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, visitava o Brasil e outros países da América Latina, região onde está a surgir um projecto que pode ajudar a minar as fundações do poder económico dos EUA, depois de, no início deste ano, o Brasil e a Argentina terem firmado um acordo para criar uma nova moeda escritural para substituir o dólar nas trocas comerciais entre os dois países e na zona latino-americana. Esta iniciativa de criação de uma moeda escritural para uso no comércio bilateral entre as duas maiores economias sul-americanas, que se deverá estender a outros países da região, poderá impulsionar o comércio regional e reduzir a dependência do dólar norte-americano e será algo especialmente importante para a altamente fragilizada economia argentina, mas também para a região da América Latina que já representa cerca de 5% do PIB mundial.

A progressiva substituição do dólar como moeda exclusiva para pagamentos internacionais não é uma ideia nova (recorde-se que a invasão americana do Iraque, em 2003, ocorreu depois de Saddam Hussein ter anunciado a disponibilidade para vender petróleo em euros e que o agudizar da crise venezuelana e o aumento da pressão política norte-americana também cresceu após o anúncio da hipótese de venda do petróleo venezuelano noutras divisas que não o dólar) e sempre tem sido vista como tentativa para resolver entraves financeiros criados pela subordinação a uma única moeda internacional.

O mesmo objetivo do acordo argentino-brasileiro também foi afirmado no final da recente visita de Lula da Silva à China, quando os dois países concordaram em fortalecer o câmbio em moedas locais – modelo já em uso no comércio entre a China e a Rússia onde as respectivas moedas são utilizadas em substituição do dólar, é também usado nos acordos que a China tem concluído com um número crescente de países da Eurásia no âmbito da Nova Rota da Seda e até na compra de petróleo com a Arábia Saudita – e em promover uma alternativa a um Banco Mundial dominado pelos EUA, com o Novo Banco de Desenvolvimento, a principal instituição financeira dos BRICS, com sede em Xangai e actualmente presidida por Dilma Rousseff.

Face à crescente hostilização contra o império do dólar, pilar fundamental do domínio ocidental, os ministros dos negócios estrangeiros do G7, recentemente reunidos no Japão reagiram com o anúncio de mais sanções contra a Rússia e advertências à China e a outros países para que deixem de apoiar aquele país, no que também pode ser entendido como o reconhecimento das suas próprias dificuldades no apoio à Ucrânia.

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