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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Crítica e auto-crítica

Arnaldo Xarim
Economista

A rivalidade entre os EUA e a China é evidente há vários anos; não começou, como por vezes se tenta fazer crer com a administração Trump, nem regressou a contornos mais suaves como agora se insinua ou sempre que a administração Biden faz subir o tom das críticas a Putin e a Moscovo.

A postura geopolítica e económica da China no mundo terá desencadeado a reacção americana (algo que foi assumido por republicanos e democratas), tanto mais que a Rússia, o antigo “inimigo”, continua enfraquecida e sem o papel de relevo que já desempenhou no plano global.

Quando, na década de 1980, a União Soviética começou a implodir, os EUA já tinham encontrado no Japão o seu inimigo seguinte; na altura os gigantes japoneses das indústrias electrónica e automóvel sobrepunham-se claramente aos congéneres americanos e era das terras do Sol Nascente que chegavam as grandes ameaças à competitividade e aos empregos norte-americanos.

O que não se percebeu então por terras do Tio Sam é que os japoneses tinham investido fortemente em infra-estruturas e educação, o que lhe permitiu desenvolver produtos de alta qualidade que beneficiavam de grande procura e fácil aceitação nos mercados internacionais. Do mesmo modo que não compreenderam que já então o sistema financeiro norte-americano exigia lucros imediatos, assemelhando-se mais a um casino que a um sistema de suporte e apoio ao desenvolvimento da sua economia e que as principais infra-estruturas norte-americanas datavam dos tempos do New Deal (programa implementado pela administração de Franklin D. Roosevelt, nos anos 30 do século passado, em resposta à Grande Depressão e com o objectivo de recuperar a economia norte-americana mediante grandes investimentos em obras públicas) e apresentavam já sinais de clara degradação e que cresciam os níveis de iliteracia entre os jovens sujeitos a um sistema educacional subfinanciado e incapaz de os formar para as necessidades do mercado de trabalho.

É verdade que fruto da estratégia de combate à Grande Depressão (com o massivo investimento em obras públicas) e em consequência do desfecho das guerras mundiais (com a de 1914-1918 a determinar o fim dos impérios coloniais e a de 1939-1945 a garantir o papel hegemónico da economia norte-americana) a geração que se lhe seguiu (a dos Baby Boomers) assistiu à replicação do modo de vida americano e assumiu (mal) a sua superioridade depois da implosão da União Soviética, fortalecendo a ideia que todos os problemas e as dificuldades que se seguiram foram responsabilidade dos outros.

Se há coisa que ensina o estudo atento da história é que nem sequer seria necessária a proverbial sobranceria norte-americana, pois é sempre mais fácil culpar os outros do que assumirmos as nossas próprias culpas, como sucede agora no confronto sino-americano. Sem querer minimizar o problema, recorde-se que até na fase em que a rivalidade se tornou mais palpável, grandes empresas e fundos de investimento norte-americanos continuaram a realizar grandes negócios na China, financiando a instalação de empresas para beneficiarem dos baixos salários locais e transferindo tecnologia.

Alguns especialistas, como o professor na Universidade de Berkeley, ex-Secretário de Estado do Trabalho na administração Clinton e ex-conselheiro de Obama, Robert Reich, não hesitam sequer em afirmar, como o fez nas páginas do The Guardian, que « maior perigo que enfrentamos hoje não vem da China. É a nossa tendência para o protofascismo. Devemos ter cuidado para não demonizar tanto a China a ponto de encorajar uma nova paranóia que distorce ainda mais as nossas prioridades, incentiva o nacionalismo e a xenofobia e leva a maiores gastos militares, em vez de investimentos públicos em educação, infra-estruturas e pesquisa básica dos quais a segurança e a prosperidade futura da América dependem criticamente».

Parece, assim, que a questão principal para os EUA passará por uma redefinição da sua identidade, facto muito pouco tranquilizador face à conhecida realidade histórica – que já nem o desgastado slogan do melting pot fundador consegue disfarçar –, às regulares notícias que de lá nos chegam, reportando a constante violência num país onde se estima a existência de cerca de 400 mil armas, onde mais de 1/3 das famílias terão pelo menos uma arma, onde existem estados que passaram a dispensar o licenciamento do porte de arma e onde recentemente um juiz californiano anulou a proibição de armas de assalto por serem tão necessárias como um canivete suíço, a persistência de um racismo latente e o crescente radicalismo político.

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