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João de Sousa

Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Cruzeiros Costa

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O PS de António Costa obteve uma expressiva vitória nas eleições legislativas, acompanhado nessa vitória pelo Bloco de Esquerda, de uma sua dissidência que entrou no Parlamento, e do PAN tendo apenas o PCP continuado a sua erosão eleitoral.

A direita, pelo seu lado, deverá ter obtido um dos seus piores resultados de sempre, penalizando especialmente o CDS que vê ainda aparecer ao seu lado dois novos concorrentes.

  1. Arca de Noé

A vitória é indubitavelmente de António Costa. A ele se deve a invenção da geringonça e a sua manutenção por quatro anos, feito que a generalidade dos analistas – eu incluído – julgava impensável, como a ele se deve esta vitória clara que modifica significativamente o mapa político parlamentar.

Numericamente, o PS pode assim resistir a tudo, menos à aliança de todos, ou quase todos, contra si, como a que provocou a derrota de Sócrates em 2011, e é por isso natural que António Costa veja numa geringonça alargada a forma de assegurar a estabilidade que afirmou ser o seu principal objectivo político; uma geringonça que os seus críticos tenderão agora a alcunhar de ‘Arca de Noé’ dado o protagonismo e o exponencial reforço de um dos seus membros, o partido conhecido pelos animais.

A aliança é doutrinariamente complexa, como se viu com a guerra do bife que fracturou profundamente o eleitorado socialista e indispôs a sua maior parte a concessões maiores aos parceiros de navegação, ou ainda com as abomináveis aproximações do PCP e do Bloco de Esquerda às ditaduras russa, venezuelana ou ao fascismo iraniano e o seu propalado desejo de desmantelar a NATO.

A isso, responde-se com a geometria variável, parecem pensar os dirigentes socialistas, como aliás já fizeram no passado, aliando-se a uns para reclamar a fé no serviço público e a outros para confiar na OTAN.

Pode ser que sim, mas convém aos almirantes e pilotos do cruzeiro meditar bem sobre os naufrágios do passado e como em condições semelhantes eles se poderão vir a repetir.

  1. A síndroma do 115

Em 1999 António Guterres obtinha 115 deputados, um a menos que a maioria absoluta mas à prova de tentativa de derrube de qualquer aliança. E no entanto, menos de três anos depois, declarou o pântano e bateu com a porta.

António Guterres saturou-se de aturar os que o rodeavam apenas pelos seus interesses, a incapacidade de fazer frente aos desafios, e faltou-lhe acima de tudo a paciência para o quotidiano político pantanoso que o rodeava.

António Costa deu nesta campanha claros sinais de cansaço, sendo o último e mais notório o da sua agressividade em plena rua e diante das câmaras televisivas, mas reflectindo-se também no episódio de dor de costas que o impediu de fazer campanha de rua ou na falta de paciência com que cada vez mais tendeu a responder às pequenas caneladas políticas de que é feito o debate político entre nós.

A caricata telenovela de Tancos, que a acreditar no que se lê na imprensa terá sido desencadeada por uma dívida de mil euros a um traficante de droga, e que levou todo o Portugal institucional, obviamente com o senhor Presidente da República à cabeça, a montar uma inenarrável telenovela de que ninguém se sai bem, serve para entendermos como o pântano não saiu do sítio e pode bloquear o cruzeiro.

Não será ele tentado a repetir o gesto de António Guterres? E poderá o poder passar a outrem sem eleições?

Os cenários e as estratégias de navegação propostas pela liderança socialista não parecem ser muito dinâmicas, sendo mais consistentes com a de uma proposta de um cruzeiro em águas que poderão não permitir a sua navegação.

  1. O naufrágio financeiro

Mário Centeno foi a grande personalidade que tornou possível a Geringonça-1 e permitiu aos investidores e credores a confiança que faltava ao país. Pessoa inteligente e sensível foi exponencialmente melhor protagonista que os que o antecederam, mas é claro que os métodos que utilizou e as condições em que reergueu os créditos financeiros do país dificilmente se repetirão.

Mas em qualquer caso, não parece tão pouco que Mário Centeno esteja interessado em desempenhar o papel que desempenhou até hoje, tendo avolumado os sinais de que procurava nova colocação.

Perder Centeno é perder o principal estratega da navegação do governo e essa perda é dificilmente substituível. Mas mesmo que o seja, o problema é que é difícil continuar a manter o rumo financeiro mantendo tudo estruturalmente como dantes, limitando o investimento infraestrutural e gerindo a despesa a partir do Ministério das Finanças numa conjuntura que se adivinha mais difícil.

Precisamos não esquecer que o que fez unir todos contra Sócrates foi a perspectiva da austeridade, mesmo se a rejeição dessa austeridade se viesse a traduzir – como veio – em mais austeridade ainda.

Não é possível pedir a um partido político que vende ilusões que diga aos seus eleitores que a austeridade proposta é precisa porque se não for aceite, o eleitorado dará uma grande derrota à esquerda e colocará no poder uma direita ainda mais austeritária, o que em substância era o que o PS pedia que o BE e o PCP fizessem em 2011.

Epílogo

O cruzeiro proposto por António Costa arrisca-se a ser mais tormentoso do que o que é antecipado. Altura talvez para os aspirantes a líderes socialistas começarem a pensar seriamente nos destinos do país, pensamento que não deve ser confundido com o dos seus parceiros de viagem, que seja realista, progressista e visionário.


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