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Sábado, Janeiro 22, 2022

“Culto Oculto”

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Prefácio ao livro “Culto Oculto” de Vera Novo Fornelos

Bom seria, que eu, enquanto poeta e prefaciador, fosse capaz de resumir a força do verbo que esta poeta portuguesa e vianense transporta e transmite. E a força de natureza poético-literária pode ser travada?

Bem o diz a poeta em “Culto Oculto”:

“ouço os vossos pensamentos
…nada em vós me é oculto
penetro no vosso culto”

e remata:

“e o que era estranho e escuro
ilumina-se num coração puro”.

Em que momento a poeta e sua poesia pungente não se fundem e confundem formando um “corpus” único? A fusão acontece com a intensidade poética de uma flauta, como afirma:

“procurei o silêncio
no meu silêncio
e escutei uma flauta
que vibrava intensamente
não há silêncio
no meu silêncio…”.

A sua estreia no singular como autora de obra individual, não a coíbe de convicta reafirmar o que facilmente descobrimos ao lê-la:

“uma jazida de ideias
é o que eu sou (…)uma dualidade sinergética
que faz surgir as ideias.”

Depois, há sempre o sabor titubeante e quimérico das palavras que se desfolham e desnudam.

Por vezes, a ternura também fere e, por vezes, também encanta. Das memórias se fazem histórias e das histórias, poesia. Por isso, profética, reclama:

“Não há um caminho
meio andado
nem dois por andar
mas um destino
ainda por chegar”.

São memórias de quem as guarda no baú da sua “meninice” e no auge da sua maturidade como um tesouro. E bem se define ao afirmar:

“Sou um livro
publicado
na mortalha
de um cigarro
queimado”.

A emoção à flor da pele, com a palavra certeira, como uma arma que procura o alvo sem ferir, mas evita o falhanço ao constatar:

“Se parar para pensar
vou ouvir o vento
e se o vento for o pensamento
vai voar
vai -se libertar
das amarras do tempo”.

Sensibilidade poética , que capta a essência do poeta numa rajada ao resumi-la cantando:

“A alma dum poeta
é feita da quinta essência do Universo
é alma desfeita
e refeita num só verso”.

E quem pode mudar o destino de uma poeta que vive numa roleta oculta e, que, paciente, define:

“A espera” como uma lamparina
que se incendeia
de esperança”?

Bem nos avisa como leitores atentos:

“Compreende
o voo
das aves
não te detenhas
na articulação
das suas asas”.

E um ciclo novo se abre com esta obra, quimericamente objectiva, que nos alerta para o “Culto Oculto”. Haja, pois, um diálogo genuíno entre o leitor e a autora da utopia convicta, pois:

“A vida
segue
o seu percurso
natural
como um rio
que fluí
voluntariamente”.

Bayete Poeta!


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