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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Da Democracia à Telecracia

Pedro Pereira Neto
Pedro Pereira Neto
Académico. Ensina comunicação e jornalismo.

Pedro Pereira NetoEm 2006 Bernard Stiegler publica uma obra polémica intitulada “La telecracie contre la democratie” sublinhando, entre outros aspectos, o desaparecimento da uma certa racionalidade cívica e eleitoral nas/os cidadã(o)s em benefício de um reforço das pulsões, da emoção e da projecção da/o eleitor(a) na expressão do seu sentido de voto. Observando o contexto em que estas eleições presidenciais decorreram, é difícil não considerar tratarem-se estas, mais do que quaisquer outras desde o início da Democracia em Portugal, as que mais ilustram precisamente essa dimensão emocional.

Pensar em Telecracia é, no essencial, pensar num regime político no qual o papel decisivo na criação, alimentação e sedimentação da imagem e dos méritos de um(a) candidata(o) é desempenhado pelos meios de comunicação social de grande alcance, muito mais que a dimensão partidária que pode ser-lhe associada. A infância do nosso regime político continua a fundar-se maioritariamente em alinhamentos de voto explicados pela fidelidade a um partido, em linha com os miseráveis e irresponsáveis níveis de literacia política cronicamente demonstrados pela população – com excepções que, mesmo confirmando a regra, vão sendo extraordinariamente interessantes de acompanhar. Mas não é menos verdade que a natureza unipessoal do cargo de Presidente da República se presta muito à entronização mediática e à exploração dos mitos que os próprios media criam, não apenas para alimentar a sua máquina de criação de factos audimetricamente convenientes, mas sobretudo para defesa da sua própria agenda ideológica e daquela mantida por quem lha define.

E neste plano há um sinal que deve preocupar as/os democratas de entre nós:uma das candidaturas destacou-se das demais pelo facto insofismável de lhe ter sido permitida/tolerada uma campanha de auto-promoção e mitificação à revelia do que é saudável enquanto processo de apresentação e escrutínio crítico de ideias políticas. Por conveniência, por omissão ou por alheamento da Cidadania – para não dizer os órgãos a quem a vigilância destes processos cabe –, a verdade é que essa candidatura assumiu de modo perfeitamente evidente o papel de porta-bandeira da afirmação de um novo tipo de regime político, no qual não é a racionalidade dos argumentos, o bom-senso das soluções ou a igualdade de circunstâncias a constituírem alicerce, mas sim a popularidade, o reconhecimento permitido por um share televisivo que, sendo critério relevante para avaliar do sucesso de condutas primatas em reality shows, não pode, sem perda qualitativa da nossa Democracia, passar a ser critério de validação política e eleitoral.

É, pois, decisivo que ao conforto preguiçoso de telehedonismo não venha a corresponder, por substituição dos pilares de uma Democracia saudável, madura e perene, uma Telecracia doentia, infantil(izante) e volátil.

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