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Quarta-feira, Maio 29, 2024

Das boas leituras estivais que fiz

José Carlos S. de Almeida
José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

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Eu, em férias, sou um adepto fervoroso das esplanadas. Vou à praia, mas paro na primeira esplanada que me acene com uma cerveja gelada. Depois, desobstruído o caminho, vem o livro.

Porém, a leitura na praia, apesar do grande prazer que proporciona, arrasta também alguns inconvenientes: o vento e a areia, além de que a leveza que então procuramos, reclama pequenos livrinhos. Obviamente, estamos a referir-nos à dimensão do livro, que se deve acomodar à toalha que segue enrolada.

Em Agosto, tentámos reduzir ao mínimo as coisas que carregámos: em vez das calças vestimos calções, a t-shirt substitui a camisa, em vez da carteira, uma nota de cinco euros enroladinha, em vez dos documentos, apenas o porta-chaves, em vez dos dossiês uma revista, nada de farnéis mas antes uma pecinha de fruta e em vez do jornal de referência, optámos por um jornal desportivo ou mesmo o folheto do pingo doce.

No verão, reduzimo-nos à nossa dimensão mais elementar, o eu despido de todos os formalismos e conveniências sociais. A leitura estival deve acompanhar esta dinâmica: em vez dum livro, optemos por um livrinho. Por dois livrinhos, em bom rigor.

Contudo, um livrinho, pode esconder uma grande obra. Um livrinho pode ser o resultado e o pretexto duma oportuna reflexão. É por isso que para este verão fiz-me acompanhar por dois excelentes ensaios de Slavoj Zizek, editados pela Objectiva. Tratou-se de A Europa à Deriva e O Islão é Charlie?

Slavoj Zizek

Comecemos pelo autor: o filósofo esloveno Slavoj Zizek, nascido em 1949, adepto de Marx e da psicanálise lacaniana, é aquilo que poderíamos designar como um filósofo fracturante. Não só pelas questões que são objecto da sua reflexão, mas também pelo modo como as perspectiva. Não é sem razão que os seus críticos o consideram um filósofo perigoso, provocante e provocador, obsceno, um observador contra-intuitivo.

europa-derivaOra, quanto aos temas abordados nos livros que vos proponho agora, é por demais evidente que se trata de questões que mantêm uma actualidade. A todo o momento, os terroristas radicais do Estado Islâmico vão manifestando a sua existência, bem como, a todo o momento, a Europa, esta Europa do Sr. Juncker e da Sra. Merkel, revela o seu desnorte, a sua falta de rumo. Por isso, estas leituras estivais acabam por continuar a ser plenamente actuais. Infelizmente actuais. Até porque Zizek coloca essa falta de orientação da Europa perante duas situações concretas: o terrorismo e a crise dos refugiados.

Além disso, se, como queria Hegel, o dia do filósofo deve começar com a leitura do jornal, então isso quer dizer que a tarefa de pensar deve-se exercer em cima do acontecimento. E não como vulgarmente se entende, que “não se deve pensar a quente” ou “se deve deixar assentar a poeira do caminho”. Não, talvez seja importante inverter a equação. Refletir em cima do acontecimento, eis o verdadeiro desafio para a tarefa do pensar.

Zizek, talvez o filósofo mais militante da actualidade, é claro: ao contrário dos “adeptos da filosofia barata”, o mais difícil de conjugar é precisamente o calor do momento e o acto de pensar.

A tarefa verdadeiramente corajosa para o pensar é fazê-lo sobre as brasas do acontecimento e não esperar que o tempo faça arrefecer as chamas que nos consomem.

É por isso que estes dois livros de Zizek lançados entre nós pela Editora Objectiva do grupo editorial Penguin Random House são precisamente o exemplo desse pensar que se exerce sobre a actualidade, na plena vertigem dos acontecimentos, perante a urgência de compreender o que nos está a acontecer sem as leituras indignadas e/ou moralistas que se resumem a um estado de almas pardas.

islao-charliePor isso Zizek sublinha que pensar significa ir além do pathos da solidariedade universal que explodiu nos dias imediatamente a seguir ao ocorrido nas instalações do jornal Charlie Hebdo.

Assim, o pensar filosófico ganha corpo nessa tensão permanente entre um exercício no calor dos acontecimentos e o ir além da paixão desses dias escaldantes, na procura dum distanciamento crítico, que não é o ganhar uma distância, mas tão-só não embarcar no coro das virgens ofendidas que subitamente uniram e unem esquerda e direita.

O que Zizek nos vem advertir é que, apesar duma actividade que se classifica como oriunda dos fundamentalistas muçulmanos e da sua expressão extrema que é o Daesh, não se pode perder de vista a dimensão ideológica desta luta. Isto é, por detrás do discurso religioso e das sua declarações, em nenhum momento podemos esquecer as motivações de ordem ideológica e o seu conteúdo de classe. É que não é por se afirmar que se vive no céu ou para o céu que se deixa de ter os pés e as mãos bem mergulhados na terra, nesta terra.

Assistir ao discorrer do pensamento de Zizek é também gratificante. Veja-se, por exemplo, quando a propósito ainda dos ataques às instalações do Charlie Hebdo, Zizek vem-nos recordar do óbvio esquecido: é que é frágil a crença de um muçulmano quando este se ente ameaçado “por uma caricatura idiota publicada num jornal semanal satírico”. Ou então, ao considerar como a necessidade de manter as mulheres tapadas tal pressupõe um universo extremamente sexualizado pois o simples facto de um homem se cruzar com uma mulher é, para ele, uma provocação a que é impossível resistir!

Por outro lado, em relação a esta Europa à deriva, Zizek vem chamar a atenção para o facto de que a actual crise dos refugiados constitui-se como uma possível oportunidade para a Europa se redefenir para lá dos pólos que nela se opõem: o neoliberalismo anglo-saxão e o capitalismo autoritário de valores asiáticos.

O que pressupõe a divisão que se instalou no debate europeu: entre aceitar a «modernização», adaptar-se à nova ordem global ou salvar o máximo possível do Estado social que estava nos pressupostos dos seus pais fundadores. O que não significa que uma das alternativas se coloque do lado do progresso enquanto a outra esteja condenada ao retrocesso e ao insucesso.

O que coloca a Europa à deriva é não perceber os pólos desta contradição. E onde está a contradição, está também a sua superação. Hegel, sempre ele, dixit!

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