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Quinta-feira, Julho 25, 2024

De José Bonifácio à Marta Vieira: nomes que contam a história do Brasil

Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Carolina Maria Ruy, em São Paulo
Pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical e jornalista do site Radio Peão Brasil. Escreveu o livro "O mundo do trabalho no cinema", editou o livro de fotos "Arte de Rua" e, em 2017, a revista sobre os 100 anos da Greve Geral de 1917

A passagem do Bicentenário da Independência do Brasil junto com uma campanha eleitoral tão decisiva, tornam ainda mais evidentes os conflitos de interesses que marcaram a história e ainda mais complexa a reflexão, para quem se propõe a fazê-la.

Chegar aos 200 anos tendo no comando do país uma pessoa com ideias e práticas tão retrogradas, antissociais e repulsivas, como as de Jair Bolsonaro, pode até dar uma falsa impressão de que evoluímos pouco. O espírito do atual governo e do anterior, de Michel Temer, traz à memória um passado colonial, escravista, subdesenvolvido e relegado ao abandono.

Mas o momento pede que ressaltemos qual é o país com o qual nos identificamos e como o projetamos para o futuro.

Recentemente me perguntaram se temos o que comemorar no Bicentenário da Independência, e o meu impulso foi detectar uma linha de civilização que estendemos desde 1822. Como uma corrente imaginária de pessoas, desde o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva até a jogadora Marta Vieira, em uma trajetória de lutas, descobertas, criatividade e solidariedade.

Assim nasceu a ideia de, junto com as centrais sindicais CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB e Nova Central, definir uma seleção de pessoas, desde as que viveram as lutas pela independência, pela abolição e pela República, até as que, na atualidade, desbravam caminhos para irmos além.

O projeto instigou sindicalistas e jornalistas a buscarem na memória nomes que deveriam ter uma cadeira na estimada seleção. Foi um grande trabalho coletivo cujo ponto de partida foi a publicação, em vários sites, em dezembro de 2021, do artigo “Bicentenário da Independência: resgatar nossas lutas e nossas referências”.

seleção dos 200 nomes tornou-se um grande mosaico, amplo, diverso e com representações de vários setores da sociedade. Não foi fácil, mas valeu a pena. E, acima de tudo, foi um exercício de diálogo e de consenso.

Instigante e desafiadora, a ideia gerou ainda outro projeto complementar: uma lista (criada por um grupo de jornalistas da imprensa sindical, o André Cintra, Marcos Ruy, Susana Buzeli, Val Gomes e eu) de 200 obras que atravessam esses 200 anos e expressam o caráter modernista, inventivo e miscigenado da cultura brasileira.

Após o lançamento do projeto e a divulgação dos nomes na Câmara Municipal de São Paulo, em 15 de agosto de 2022, com direito à participação da Corporação Musical Operária da Lapa (em atividade desde 1881), sindicatos e a imprensa progressista repercutiram o evento, alguns ressaltando o conjunto da obra e outros destacando nomes de suas categorias, de seus Estados e de seus grupos sociais. Esta apropriação por parte das entidades e de pessoas que gostaram do projeto, reforçou o caráter coletivo, didático e agregador da ideia sobre a qual trabalhamos.

Uma ideia de país

O eclético mosaico que construímos revela que o Brasil não é apenas resultado das forças do retrocesso. É também resultado do trabalho de pessoas que projetaram em suas ações ideias sobre a nação.

Considerando a dinâmica de interesses que move a sociedade, com suas contradições e reviravoltas, avançamos ao longo desses 200 anos, mantendo a unidade geográfica, a identidade nacional, o desenvolvimento social e o apreço pela democracia, a qual lutamos para manter e aprimorar.

O advento do fenômeno Temer e Bolsonaro e o clima de golpismo que se instalou na República não são o fim da história. Mas para movê-la de acordo com valores progressistas e humanistas é essencial uma ideia bem formada de país.

Só com uma ideia bem definida sobre qual o país que existe e como ele pode evoluir é possível usar melhor a palavra democracia e não apenas reproduzi-la de forma vazia e manipulável politicamente.

Os 200 nomes definidos pelas centrais sindicais contam uma história de grandeza e de coragem. Muitos outros nomes cabem nessa história. Como disse o jornalista João Guilherme Vargas Netto ela é a pura expressão do povo brasileiro.

Urge conhecer a vida por trás de cada nome e pensar o Brasil para levar adiante a corrente de lutas, de descobertas, de criatividade e solidariedade que nos faz vencer o atraso e construir um Brasil melhor.


Texto em português do Brasil

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