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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Depois do Paraíso

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O chefe da oposição pouco se importa com saber se a medida é constitucional e menos ainda se viola o mais básico dos direitos do cidadão, apenas quer saber se é eficaz, no fundo deixando no ar a sugestão: se é para controlar a nossa vida, façam a coisa pelo menos com pés e cabeça, à chinesa, em que só passa quem tiver o código verde no telemóvel.

  1. Aldeia no limite

O Economist do dia 3 faz a recensão literária de crónicas mexicanas em que inclui ‘Pueblo en vilo’ – que traduzi para ‘aldeia no limite’ – uma crónica de São José de Garcia, ‘uma pequena cidade do Estado de Mochocán’ e, ainda segundo a recensão um dos maiores livros da literatura mexicana.

San José de Gracia, Michoacán

Na recensão publica-se um excerto do livro relativo ao pânico que se abateu sobre a aldeia aquando da aproximação do dia 31 de Dezembro de 1900, tida por ser a data do fim do mundo, e em que a população invadiu a igreja para a confissão que, como sabemos, é um dos requisitos para abrir as portas do Paraíso. O padre terá explicado que não podia confessar todos ao mesmo tempo e que tinha resolvido estabelecer prioridades, dando a primazia às mães de crianças de colo, presumo eu, porque estas, não estando ainda em idade de se confessar (e suponho que também não de pecar) ganhariam assim a companhia das suas progenitoras no Paraíso.

Acontece que entre as mães foi identificada uma senhora que utilizou uma almofada para se tentar fazer passar por mãe, o que levou a um enorme tumulto na igreja… A sequência da história tive de a seguir no original disponível na web porque o Economist achou por bem não a continuar.

Apesar do tumulto, o padre Othón terá conseguido confessar todos – presumivelmente a falsa mãe incluída – em três dias e três noites que precederam a noite do apocalipse que, como sabemos, não veio, recuperando-se lentamente a vida, a começar pela natalidade que ressurgiu e a mortalidade que desceu para o normal.

Como estarão lembrados os menos jovens, um século depois, o potencial pânico era já maioritariamente informático, e resultaria de os programadores de tempos recuados não terem pensado na eventualidade de mudar de numeração, sendo que para outros, teria de ser adiado de um ano por nos primórdios da era cristã não ser ainda conhecido o zero, de origem indiana.

Em qualquer caso, não foram registadas então, que eu saiba, quaisquer engarrafamentos nos confessionários, possibilidade que creio seria hoje, em 2020, ainda mais remota.

  1. O mundo para lá do limite

Aquilo a que assistimos é apenas parcialmente parecido. A angústia e a irracionalidade provocada pelo pânico fazem subir a mortalidade e descer a natalidade como aconteceu no prenúncio do fim-do-mundo em 1900 em S. José de Garcia (51% a mais na mortalidade, 12% a menos na natalidade), mas tudo o resto é mais inquietante. Deixou-se de acreditar na vida eterna e passou a exigir-se para este mundo o Paraíso que antes apenas se ambicionava para o outro; exige-se a imortalidade sem que se dê conta que com ela viria o fim do que há de mais essencial na vida; o dia do julgamento, esse, não tem data marcada, e é permanentemente adiado, para quando ‘se achatar a curva’ para quando se ‘achar a vacina’ para quando o jornal do dia seguinte não descobrir mais uma forma de contaminar, mais um efeito colateral, mais uma profecia apocalíptica, mais histeria, mais falta de senso.

Como exclamava incrédula nas redes sociais uma cidadã da região parisiense: ‘proíbem-me de sair de casa nas ruas desertas às dez da noite mas obrigam-me a apanhar o comboio suburbano superlotado às sete da manhã dizendo que é para me salvar da contaminação provocada pelos outros’.

Mas as autoridades francesas estão plenamente alinhadas com a paranoia geral que se faz sentir em praticamente todas as latitudes e que quase não conhece limites, não fora a fé que se apoderou de quase todos nas virtudes do modelo totalitário chinês que teria conseguido o milagre de esconjurar o Inferno controlando a vida de todos e impondo o mais draconiano dos sistemas antissociais, única resposta que parece apaziguar o frenesim milenarista.

E o problema é que não há luz no fundo do túnel, porque não há SARS-2 sem SARS-3, ou se por acaso houver dois sem três, haverá certamente uma gripe mais mortal – como têm sido muitas – ou aparecerá outro germe, ou se nada mais se encontrar reparar-se-á noutro qualquer entre os milhares que conhecemos que merece continuar o pânico. A cura de uma psicose só se faz psicologicamente e é fútil tentar encontrar outras saídas para ela.

  1. A dimensão nacional da psicose

Antes mesmo de ter começado o Estado de Calamidade – calamidade, curiosamente, agendada há semanas atrás – fomos tendo um pequeno cheiro do que aí vem com a suspensão de quatro alunos de uma escola de Sintra de que muito se falou nas redes sociais.

De acordo com o Observador, um jovem teria partilhado um lanche com antigos colegas, o que seria um duplo crime, tanto pela partilha da comida como pelo facto de um dos jovens ser repetente, e portanto, ter deixado de estar na mesma turma que os seus colegas do ano passado, ousando, apesar disso quebrar a ‘bolha’ que seria a sua nova turma para ir ver os seus amigos do ano passado.

Mas pior ainda, como assegura o Observador, não partilharam o lanche por alguém não ter para comer mas por uma escandalosa vontade de sociabilização. Refeições em comum, discutir quem tem as melhores sanduíches e, pior ainda, recusar-se a entender que tinha de revogar as amizades do passado, e fazer as que a senhora directora da escola achasse conveniente, é manifestamente criminoso na cabeça de quem tomou conta das nossas vidas.

Como nos admirarmos portanto que o Governo tenha decidido propor à Assembleia da República uma lei que torna obrigatória uma aplicação informática no telemóvel sujeita a fiscalização policial e multa de quinhentos euros?

O chefe da oposição pouco se importa com saber se a medida é constitucional e menos ainda se viola o mais básico dos direitos do cidadão, apenas quer saber se é eficaz, no fundo deixando no ar a sugestão: se é para controlar a nossa vida, façam a coisa pelo menos com pés e cabeça, à chinesa, em que só passa quem tiver o código verde no telemóvel.

Porque toda a questão passa por aqui. Mesmo os que aparentemente mais se opõem ao totalitarismo chinês, como as autoridades australianas, copiam-lhe os métodos de forma algo grotesca, sem se assegurar do controlo da comunicação para assegurar que está tudo em ordem, sem serem consequentes no que põem em prática. Entraram numa corrida que obviamente vão perder, porque nunca serão capazes de levar até às últimas consequências as barbaridades que tentam emular.

Aquilo que estamos a fabricar ultrapassa o que foi imaginado por Huxley ou Orwell, e o pior, é que não é imposto pelo partido ou pelo grande irmão, é fruto da psicopatia de massas!


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