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Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

Mais depressão na Primavera? Acontece!

Ana Pinto-Coelho
Ana Pinto-Coelho
Aconselhamento em dependências químicas e comportamentais, Investigadora Adiction Counselling

Todo um conjunto de atributos fazem crer que seria uma estação que aliviaria os estados de espírito mais depressivos. No entanto, parece que não é bem assim.

Se se sente mais deprimido na altura da Primavera, não estranhe. Não é o único.

Tal como mudam as estações do ano, o mesmo acontece com o nosso comportamento, níveis de energia, o desejo de socializar e, por vezes, os padrões de sono. Usa-se a expressão “desordem afectiva sazonal ” para explicar o que sentimos com a variação das estações do ano.

A  chamada “depressão de inverno” inclui, entre outros sintomas, a perda de energia, o dormir demais, e o ganho de peso – como resultado dos desejos de comida. Já os sintomas de “depressão da primavera” são a ansiedade, insónia e perda de apetite.

Esta depressão sazonal pode ser particularmente problemática, porque enquanto a maioria das pessoas parece estar a aproveitar o aumento da quantidade de luz solar e temperaturas mais altas, aqueles que sofrem sentem-se ainda mais tristes. Têm a sensação de que tudo à volta deles gira em “modo de felicidade” e como não conseguem sentir o mesmo, o resultado pode ser uma depressão ainda maior e com um peso maior do que o que já sentiam.

Por mais estranho que possa parecer, estudos têm mostrado que há grandes riscos para a depressão e pensamentos suicidas durante as estações Primavera e Verão.

A desordem afectiva sazonal não tem um diagnóstico específico mas pode ser considerada uma depressão maior. E a situação complica-se: embora a pessoa se possa sentir muito fragilizada e triste numas alturas, existem outras em que até consegue arranjar alguma motivação. O resultado é que, por isso, não sente urgência nem razão para  procurar ajuda.

A causa exacta da depressão sazonal não é conhecida, no entanto, muitos especialistas nesta matéria acreditam que pode ser causada por um desiquilíbrio químico no cérebro, que tanto pode ser hereditário como causado por situações da vida da pessoa que sofre desta depressão.

Se encontramos especialistas que sugerem a exposição a uma maior quantidade de luz para pessoas que sofrem da depressão do Inverno, o tipo de tratamento para as depressões da Primavera parece estar mais associado com menor exposição solar, alguma dieta e exercício físico. Mas não podemos esquecer a importância que as alergias, típicas da estação, podem ter.

A depressão pode agravar-se durante os períodos de pico dos polens nas pessoas com alergias. E todos sabemos os efeitos destas alergias ao “polen primaveril”: espirros consecutivos e constantes, nariz com corrimento ou entupido, olhos lacrimejantes, comichão na garganta e nos olhos – acredite que isto tudo junto pode ser motivo suficiente para  ficar deprimido, principalmente quando o quadro se completa com propensão para a depressão sazonal.

Os ataques de alergia desencadeiam a libertação de citocinas que induzem a produção de anti-corpos para neutralizar os elementos alergénicos.

Elevados níveis de citocinas, promotoras de inflamação, têm sido associados ao chamado “comportamento de doença”. Este padrão de comportamento é caracterizado pelo aumento do sono, diminuição do apetite, diminuição da libido e da vontade de socializar. Em suma,  um enorme coadjuvante para a depressão sazonal.

De facto, a Primavera, estação em que é suposto andar-se com um estado de espírito muito mais alegre – graças a (quase) tudo o que traz consigo, pode bem ser a estação da “alegria dos outros”.

Propensão para a depressão sazonal, alergias, natureza luxuriante e aqueles sentimentos que nos forçam à boa disposição e felicidade, só podem ter um resultado: uma depressão maior.

Se se sentir assim, não minimize. É Primavera, mas infelizmente a Primavera pode mesmo trazer depressões. Não é engano seu. Descontraia-se: não está sozinho!

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