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Sábado, Outubro 23, 2021

Quando o desejo de morrer é maior do que tudo

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

Homenagem ao meu primeiro professor, por acaso de yoga


Concordo que as pessoas têm direito à escolha da morte, respeito demais os suicidas, gostaria de ter a opção da eutanásia se eu estivesse enfrentando uma doença terminal e dolorosa. Por isso fui voluntária do CVV – Centro de Valorização da Vida – durante pouco mais de dois anos. Aprendi tanto!

É preciso se submeter a muito treinamento e entrevistas antes que a instituição aprove a entrada de novo voluntário, porque a pessoa selecionada não pode ter nenhum tipo de preconceito, nenhum mesmo! Diferentemente do que o senso comum avalia, o CVV não tem o objetivo de mudar as ideias de quem procura o serviço, mas, sim, de “ouvir” o usuário, com muito acolhimento, sem nenhum conselho ou interrupção, de modo que a pessoa alivie o sofrimento que o invadiu naquele instante e, se houver, a ideia desesperada do suicídio.

Se a ideia for ponderada, reflexiva, o voluntário acata, não solicita socorro médico, polícia, tampouco nome ou endereço, acolhe a decisão soberana com a alma e sem alarde, a pessoa do outro lado do telefone espera sigilo e terá.

Frequentemente, atendi solitários, que me ligavam semanalmente no plantão; solidão é a maior dor desta vida. Apenas duas pessoas queriam realmente se suicidar, já haviam tentado muito: uma mulher que morava em abrigo público, e que havia acabado de voltar de um hospital após nova tentativa (contou que tentaria de novo até dar certo). E outra que, após ter passado a vida tentando se suicidar, descobrira que estava com câncer terminal. Então perdera o desejo pela morte, arrependida e reenamorada da vida, mas a morte já estava irremediavelmente próxima.

Essa segunda, por acaso uma profissional das letras, garantiu-me que o tratamento com choque elétrico é que a curara, embora tarde demais. Eu a ouvi na escuta “terapêutica”, mas sei que é uma questão bem complexa.

A morte verdadeira, à vista, pode assustar os deprimidos e sofredores que pensam idealmente no fim da vida como chance de “nascer” para uma alegria que lhes parece estar além desse mundo.

Seja como for, aqui vai uma opinião pessoal, acho que todo ser humano deve ter a opção de morrer com dignidade quando sentir — talvez os idosos tenham essa sabedoria, não sei — que é a sua hora de partir.

Como eu disse, no CVV, não há julgamento moral ou religioso, tampouco eu vejo o suicídio como questão moral ou religiosa. Acredito em Deus, sim, de um modo muito particular, por isso sei que “ele” (uma energia, um ser, uma síntese do universo) está ao meu lado e nunca contra mim, nem que eu cometa barbaridades. Se essas barbaridades constituírem um atentado aos direitos humanos, provavelmente — espero — responderei à Justiça dos homens ou, também e pior, à própria consciência quando ela me aprisionar em algum pensamento clandestino, alheio à minha vontade.

Por tudo isso acredito na compaixão como sentimento transformador e acredito na morte como um consentimento. Aliás, já tive muitas vezes a experiência de ver amigo ou parente agonizar em um leito de morte sem que a morte, libertadora, chegasse.

Foi quando percebi (não é invenção, mas fruto da minha observação, equivocada pode ser, reconheço) que o doente tem que aceitar a morte ou pode prolongar o sofrimento além do devido. No final, todos temos que dizer SIM para a morte, seja “brigando” como em um jogo de xadrez (Sétimo selo, filme de Ingmar Bergman) ou aceitando a mão e a paz que ela nos estende.

Essa longa reflexão nada tem a ver com a Holanda, sou a favor da eutanásia, mas enchi-me de dúvidas quando li que a regra — para acatamento da morte escolhida — é o cidadão demonstrar, comprovar, a certeza de que a vida “não faz mais sentido”.

Meu tio, só para concluir, mestre de yoga, pessoa fantástica, tornou-se um inválido (não fisicamente) após sofrer seguidos derrames. Teve que deixar a profissão, reaprender a falar, pensar, etc…mas conservou a lucidez de um sábio. Disse-me que não entendia por que ainda estava nessa vida, achava que já não havia mais o que aprender, mas, como aqui estava, iria dedicar-se a cuidar de outros (o que não tinha condições de fazer) e passou a visitar semanalmente um abrigo (fica embaixo do viaduto do Pacaembu, acho que existe até hoje) não sei se de crianças ou adultos com doença mental.

Palavras dele que não esqueço: “Chris, essas pessoas me pedem ajuda com o olhar, porque não sabem falar por si mesmas”. Assim ele terminou a vida, ajudando-se enquanto ajudava o outro.

E se ele tivesse a opção do suicídio assistido permitido por lei? Creio que não mudaria de atitude. Mas não sei, sei que a força dele buscando novo sentido para a vida (uma vida que se tornou bem precária) sempre me inspirará.

A autora escreve em português do Brasil

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