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João de Sousa

Terça-feira, Novembro 30, 2021

Deus, o Diabo e a descida de Cristo à terra

Deus_Marcelo
Marcelo Rebelo de Sousa procurou, durante a campanha eleitoral e no seu discurso de vitória, vestir a pele de um homem dialogante, equilibrado, sereno e confiável. Mas, ao longo da sua vida, nem sempre este foi o perfil que lhe foi mais associado.

Um dos episódios mais conhecidos, envolvendo o seu nome, teve como protagonista um dos seus actuais apoiantes, Paulo Portas, que, em 1993, entrevistado por Herman José, garantia que Marcelo Rebelo de Sousa “é filho de Deus e do Diabo”. O primeiro ter-lhe-á dado “a inteligência” e o segundo, “a maldade”. Portas entendia, na altura, que a lealdade “não é o forte” de Marcelo e contou o célebre episódio da Vichyssoise, através do qual acusava Marcelo de lhe ter passado informações falsas relativas a um jantar na presidência da República que nunca terá existido. Paulo Portas era então director do jornal O Independente e garantia que nunca perdoaria a Marcelo Rebelo de Sousa ter tentado levá-lo a transmitir informações falsas aos seus leitores.

Mas, como na política se aplica o mesmo princípio do futebol, de que o que hoje é verdade, amanhã já pode ser mentira, os dois homens reataram relações e, durante a liderança de Marcelo Rebelo de Sousa no PSD (entre 1996 e 1999), trabalharam juntos na criação de uma alternativa política ao PS. O que acabou por falhar, por declarações públicas de Portas, que levaram Marcelo a vir dizer ter perdido a confiança no seu parceiro.

 

“Intriguista e bom samaritano”

Outro director de jornal que revelou episódios alegadamente protagonizados por Marcelo, que ajudaram a criar a imagem que dele emanou ao longo de muito tempo, foi José António Saraiva – director do Expresso, um cargo que Marcelo também ocupou. No seu livro “Confissões de um director de jornal”, lembra a célebre frase “lelé da cuca”, que surgiu no Expresso, visando o seu próprio proprietário, Francisco Pinto Balsemão, na altura a exercer o cargo de 1º ministro. Embora ressalve que foi uma história contada por terceiros, diz que, confrontado por Balsemão, Marcelo terá começado por negar ser o responsável pela frase, mas que acabou por confirmar a autoria, após ter sido confrontado com um rascunho que não deixava dúvidas sobre quem a escrevera.

Marcelo é descrito no livro como “uma pessoa imprevisível”, com “um lado intriguista”, mas também com uma faceta de “bom samaritano”. A ideia que o agora presidente tentou passar na campanha de que é alguém capaz de unir pessoas desavindas e com ideias diferentes é confirmada por José António Saraiva. No livro, conta que foi Marcelo o responsável por ele próprio ter reatado relações com Freitas do Amaral, com quem estava desavindo há quatro anos.

Mas a frase que mais permanece colada a Marcelo Rebelo de Sousa é que não seria candidato à liderança do PSD “nem que Cristo desça à terra”. A afirmação peremptória foi dita numa altura de crise interna dos social-democratas, após a saída de Fernando Nogueira da liderança. Pouco tempo depois de a ter proferido, Marcelo Rebelo de Sousa era eleito presidente do PSD e manteve-se no cargo até entrar em choque frontal com Paulo Portas e bater com a porta. Posteriormente, o líder do CDS encontraria em Durão Barroso um novo parceiro de coligação, que acabaria por lhe dar a possibilidade de chegar ao Governo.

Marcelo virou-se para a Universidade e para o comentário político, que dominou durante anos a fio, até entender que o capital de simpatia, popularidade e empatia que, por essa via, conquistara junto dos portugueses lhe conferia fortes possibilidades de vir a ser o sucessor de Cavaco Silva.

Uma estratégia que teve êxito e que o leva a cumprir um sonho de menino, pois, reza a lenda que, à pergunta de uma professora sobre o que queria ser quando fosse grande, terá respondido: “presidente da República”. Marcelo já era grande há muito tempo e, a partir deste Domingo, também pode ser tratado por presidente da República. E será, muito provavelmente, tendo em conta uma outra característica da qual gosta de se gabar, o ocupante do cargo que menos tempo vai perder a dormir.

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