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Sexta-feira, Agosto 19, 2022

Divagações cinéfilas

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

Filmes de amor, “Breve Encontro” de David Lean e a descoberta da primeira cineasta portuguesa.Há alguns dias ouvir falar do mês que agora está prestes a acabar como o ‘mês do amor’, talvez porque no dia 14, o de São Valentim, se celebra o “dia dos namorados”. Pouco versado nessas matérias julgo ser uma “tradição” importada e que em Portugal tem até uma história ainda curta. E basta navegar um pouco na “internet” para constatar que no Brasil o “dia dos namorados” se celebra a 12 de Junho, véspera do dia de Santo António, o santo casamenteiro. Ou será que por lá se celebrem as duas datas, apesar de o Carnaval ser muitas vezes em Fevereiro e, por isso, a economia (que manda nisto tudo) já ter actividade suficiente?…  Não terá sido porque em Dezembro já há comércio que chegue que o “Dia da Mãe” foi transferido para Maio? Mas deixemos para trás estas divagações e falemos um pouco de “filmes de amor” tomando como boa a sentença de Fevereiro ser o mês do dito. Já agora, não poderão todos os meses serem “meses do amor”?

Embora continue a preferir ver cinema numa sala escura – de preferência sem parceiros a comer umas coisas com cheiro nauseabundo, a desembrulhar ruidosamente os rebuçados que lhe são oferecidos à entrada (esta é amigavelmente dirigida ao Cineclube do Porto) ou a olhar sistematicamente para o telemóvel – às vezes rendo-me ao visionamento doméstico de filmes que tenho nos meus arquivos. Foi isso que fiz com este tema do amor. Fui passando por alguns títulos que, quase aleatoriamente, me vinham à ideia.  Histórias de amores à primeira vista, de amores impossíveis, de paixões serenas ou tumultuosas, de estranhos triângulos amorosos, de traições, de intrigas policiais ou políticas como pano de fundo de relações amorosas …

E assim, como quem folheia um livro, fui correndo as caixas de “dvd’s”. E parei, um pouco, em obras que me deixaram alguma marca em algum momento da minha vida, quase que independentemente da data de produção, da qualidade cinematográfica, de outros méritos, ou das abordagens: “Beijos Roubados”/Baisers Volées (F. Truffaut, 1968), “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942), “As Pontes de Madison County” (Clint Eastwood, 1995), “A Felicidade”/Le Bonheur (Agnès Varda, 1965), “César e Rosalie” (Claude Sautet, 1972), “Antes do Amanhecer”/Before Sunrise (Richard Linklater, 1995), “O Beijo”/French Kiss (Lawrence Kasdan,1995), …

“Breve Encontro”

Da dupla  Noel Coward / David Lean, uma obra prima do cinema romântico

Até que cheguei a “Breve Encontro”/Brief Encounter, de David Lean. E deixei-me ficar, tal como os inquiridos pelo “Guardian” e pelo “Observer” que, em 2010, o consideraram o melhor filme de amor de todos os tempos. Enfim, uma opinião britânica sobre um filme britânico… Mas com toda a subjectividade que estes juízos encerram uma coisa é incontestável: estamos perante um obra superior, um filme marcante da “história do cinema”.

Estamos em 1945. Uma Inglaterra que começa a respirar depois dos tormentos da guerra e da ameaça nazi. Uma estação ferroviária e um encontro fortuito de um homem e uma mulher, ambos casados e com casamentos estáveis. Um médico e uma dona-de-casa vão encontrar-se em quatro quintas-feiras seguidas. Almoçam e vão ao cinema juntos. Vivem uma paixão pouco mais que platónica, mas tão intensa quanto impossível tendo em conta os padrões da sociedade britânica daquela época.  A música de Sergei Rachmaninoff  é presença quase constante numa trama que começa com a cena do desenlace e se desenvolve num longo “flash-back” em que a mulher rememora toda esta sua fugaz história de amor. Conta-a de facto ao espectador, mas em pensamento conta-a ao marido, que está sentado no sofá à sua frente e que é a única pessoa que nunca a poderá saber.

Um Trevor Howard já consagrado, mas ainda numa primeira fase da sua carreira e uma extraordinária Celia Johson que haveria de ser nomeada para o Oscar de melhor actriz são as faces mais visíveis de uma obra prima cinematográfica em que ao magnífico texto de Noel Coward (também o produtor do filme) se alia a mestria do cineasta David Lean. Ainda sobre Celia Johson, que teria uma carreira no cinema relativamente discreta, deverá ser referido que uma parte muito substancial do seu desempenho é feito com recurso à narração em “voz off” pelo que a sua representação é fundamentalmente um extraordinário jogo de expressões faciais e corporais que remetem o espectador para o cinema mudo que, em 1945, não estava assim tão longe. Provavelmente, nos dias de hoje “Breve Encontro” só poderá ser visto em DVD ou, quem sabe, em alguma sessão da Cinemateca. Se a oportunidade surgir não a percam.

Grande Prémio do 1º Festival de Cannes

 

E, para finalizar esta prosa, algumas curiosidades sobre (ou sugeridas) por este ‘Breve Encontro’. Nomeado para três ‘Oscares’’ em 1947 (melhor realizador, melhor actriz e melhor argumento adaptado) não conquistou nenhum.

Melhor sorte teve no ano anterior , 1946, ao conseguir o Grande Prémio da 1ª edição do Festival de Cannes. Aí competiu com ‘Gilda’ de Charles Vidor, ‘La Belle et la Bête’ de Jean Cocteau, ‘Roma, Cidade Aberta’ de Rossellini, ‘Difamação’/Notorious de Hitchcock, ‘La Bataille du Rail’ de René Clement, “A Sinfonia Pastoral’ de Delannoy e  alguns outros filmes que também iriam perdurar no tempo.  A ‘Palma de Ouro’ ainda não tinha sido inventada. O Grande Prémio desse primeiro festival era um quadro a óleo como se pode na fotografia em que David Lean e Celia Johnson o recebem.

Dois filmes portugueses em  Cannes / 1946

 

Na lista dos concorrentes desse festival de há mais de setenta anos estavam dois filmes portugueses: ‘Camões’ de Leitão de Barros e ‘Três dias sem Deus’ de Bárbara Virgínia, este com fotografia de António Mendes, o mesmo de ‘Douro, Faina Fluvial’ e  ‘Aniki-Bóbó’.

De Bárbara Virgínia, pseudónimo de Maria de Lourdes Dias Costa (Lisboa, 1923 / São Paulo, 2015), só ouvi falar há muito pouco tempo. Aquela que presumivelmente foi a primeira cineasta portuguesa foi também  actriz, locutora de rádio e declamadora. Foi Luísa Sequeira com o seu documentário ‘Quem é Bárbara Virgínia?’, estreado no DocLisboa em Outubro passado e depois exibido no Porto/Post/Doc que me fez conhecer esta figura esquecida (e pioneira) do cinema português que viveu grande parte da sua vida no Brasil.

 

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