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Quarta-feira, Julho 28, 2021

Do apaziguamento ao aventureirismo

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Sob os auspícios do Emirato do Qatar, os Ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia da Turquia e do Qatar, respectivamente Sergey Lavrov, Mevlut Cavusoglu e o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, reuniram-se em Doha no passado dia 12 de Março a fim de ‘promover uma solução política para a guerra’ de acordo com a Al Jazeera, canal oficioso do emirato.

  1. Guerra e Paz

Apesar da declaração comum em nove pontos, registe-se que, de acordo com o mesmo canal noticioso, Lavrov acentuou que este triunvirato não se destinava a substituir o que está em funcionamento desde 2017, triunvirato que inclui o Irão no lugar do Qatar, enquanto Cavusoglu anunciou uma próxima reunião do trio (versão Qatar) na Turquia.

As profissões de fé na paz dos três parceiros da cimeira de Doha foram seguidas, não por qualquer desanuviamento, mas pelo recrudescer da guerra.

De acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) sediado em Londres, as forças turcas iniciaram um bombardeamento aéreo às forças curdas no dia 20 – o primeiro bombardeamento aéreo em dezassete meses – e no dia seguinte os seus ataques mais convencionais provocaram cinco vítimas entre as forças curdas e suas aliadas. No dia 21, desencadeia-se um dos maiores bombardeamentos russos na área síria controlada pela Turquia dos últimos anos. De acordo com a agência Reuters, são atingidos um hospital, instalações industriais e várias vítimas civis.

O corpo expedicionário dos Guardas Revolucionários Islâmicos (controlados pelo Irão) – a força estrangeira de maiores dimensões presente na Síria – continuou a violência contra a população, sendo notícia pela OSDH a continuação da limpeza étnica de sírios acusados de serem contrários ao regime de Assad.

Sergey Lavrov, Mevlut Cavusoglu e o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani

Para quem olhe pela primeira vez para isto, o que mais impressiona é o verdadeiro jogo orwelliano em que os interlocutores quanto mais falam de paz mais fazem a guerra; o império do cinismo, da mentira e da completa ausência de respeito pelos direitos humanos das suas vítimas, neste caso os sírios, as principais vítimas da encenação.

Para quem tenha alguma experiência, e sobretudo responsabilidades de política externa, nada disto pode constituir surpresa, mas apenas a confirmação do complexo jogo de sombras com que nos confrontamos.

 

  1. Por trás das sombras

O jogo de palavras de Putin é o mesmo utilizado no tempo soviético e a sua lógica também não mudou significativamente: defender as fronteiras do império tal como existe; procurar restabelecer as fronteiras perdidas com o fim do império soviético; sempre que possível alargar essas fronteiras.

Não há que ter qualquer ilusão quanto ao que se pode esperar de Putin, mas tão pouco se deve fazer dele o que ele não é.

Quando o Ocidente abandonou o povo sírio e apostou na Turquia e na rede política da ‘Irmandade Muçulmana’ para o representar – erro político catastrófico – entre outras coisas, isto consistiu num convite a que a Rússia fizesse o gesto recíproco com a outra potência jihadista, o Irão, e que afirmasse os seus pergaminhos de antiga potência protectora da Síria.

Acrescente-se aqui que a irresponsabilidade ocidental mostrada na Síria tinha sido já antecedida tanto na Líbia como no Iraque, com o Ocidente a afastar ditadores convidando jihadistas a tomar os seus lugares.

Quando a União Europeia – seguindo acriticamente a lógica da Alemanha – ignorou os interesses e avisos russos e estendeu uma proposta de integração económica à Ucrânia sem querer entender que na grelha de leitura russa isso constituiu uma proposta agressiva de separar definitivamente este país da esfera do império russo, procedeu de forma irresponsável.

Não estou com isto a dizer que a União Europeia devesse aceitar a lógica imperial da expansão russa, apenas que a tenha devidamente em conta e que saiba responder na devida proporção: enviar um generoso convite de integração económica à Ucrânia sem simultaneamente prever meios militares para dissuadir a Rússia de responder militarmente, foi pura irresponsabilidade e aventureirismo.

O pior é que o Ocidente resolveu deixar-se parasitar pelo Jihadismo – e isto é verdade para os seus vários centros geopolíticos – ao ponto de fazer de Putin o único mau da fita em todos os filmes, o que é falso e ridículo.

Desde 2015 que os EUA e a União Europeia lançaram uma ampla campanha de propaganda em que a Rússia aparece como a única potência que recorre a técnicas de desinformação, que recorre a operações militares externas encobertas, que tenta interferir em eleições, que promove ao assassínio de dissidentes fora das suas fronteiras. A Rússia faz tudo isso, mas está longe de estar sozinha nesse campeonato!

As coisas chegaram a tal ponto que, quando os islamistas acharam por bem montar uma operação para salvar os seus próximos na administração francesa – o chamado escândalo Benalla – resolveram mandatar uma das suas antenas, o ‘EU DisinfoLab’, para inventar uma conspiração russa que estaria por trás do escândalo.

Uma coisa é estar ciente da dimensão do problema que temos com a Rússia, outra, muito diferente, é deixar-nos manipular por quem já mostrou ser mais perigoso do que a Rússia na sua agressão aos nossos valores e interesses: o Jihadismo!

 

  1. No reino da incompetência

A opinião pública dita pacifista reclama de toda e qualquer acção armada ocidental, porque a seu ver, é necessário responder à bofetada dando a outra face.

Há já um mês, a administração Biden resolveu responder a um ataque à sua base mais importante no Curdistão iraquiano que provocou uma vítima mortal e vários feridos com um ataque na Síria ao destacamento iraquiano dos guardas revolucionários islâmicos responsável pelo ataque.

De acordo com as informações divulgadas pela melhor e mais isenta fonte de informação em matéria de direitos humanos na Síria, o ‘Observatório Sírio dos Direitos Humanos’ o ataque atingiu vários camiões com munições do contingente iraquiano dos guardas revolucionários islâmicos que atravessavam a fronteira entre o Iraque e a Síria perto de Abu Kamal, não tendo provocado qualquer vítima entre a população civil.

Enquanto a imprensa e as redes sociais portuguesas continuam cheios de condenações deste ataque – que foi um contra-ataque, que não atingiu civis e que não foi feito na sequência de qualquer declaração de paz – mantêm o silêncio sobre os ataques de proporções muito mais amplas e com numerosos danos colaterais civis desenvolvidos pelos subscritores da declaração de paz de Doha.

Que o Ocidente tenha dado luz verde à agressão iraniana na Síria em 2015 a pretexto do chamado acordo nuclear, que sempre foi uma aldrabice montada com uma gigantesca operação de propaganda, é outro exemplo de como promover a guerra falando de paz. Se o Ocidente voltar a fazer o mesmo em 2021 teremos certamente mais vítimas na Síria e em todos os alvos preferenciais da expansão iraniana, para além de se tomar uma posição catastrófica para a defesa e segurança de todos nós.

Nesta situação de guerra nas periferias a questão não é a de escolher entre apaziguamento e aventureirismo; é a de ser competente; não agir com base em conflitos de interesses; não ser manipulado; é saber pesar e calibrar as ameaças e, acima de tudo, ter princípios.

 

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