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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Do pangolim ao plano delta

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O conflito de interesses entre as grandes empresas tecnológicas, as grandes empresas farmacêuticas, os reguladores do sistema de saúde e investigação, a imprensa e as organizações que supostamente representam a sociedade civil é o nó górdio de qualquer investigação digna desse nome.

  1. No delta do Cubango

O pangolim – que foi remetido por mais de um ano ao negro papel de demónio da pandemia – foi finalmente reabilitado e, na pesquisa google, ele aparece agora como objecto de safaris fotográficos no delta do Cubango (Okavango como é conhecido no Botswana onde se situa o delta).

O cartel das empresas tecnológicas, a corte de pseudo-organizações não-governamentais e a imprensa institucional por ele subsidiada passaram um ano a tentar convencer-nos da fábula do demoníaco pangolim, não se ficando por censurar, mentir ou distorcer a realidade, mas dedicando-se também a denegrir os cientistas e verdadeiros especialistas que denunciaram a fábula.

Exposta que foi a fraude do pangolim, mercê da lei americana de transparência que obrigou à revelação pública do correio eletrónico do principal responsável pela saúde nos EUA, o plano B consistiu primeiro em metamorfosear uma monumental mentira numa suposta ‘descoberta científica’ que teria permitido colocar de novo na mesa a hipótese de o vírus ter iniciado a sua pandemia a partir do laboratório de virologia de Wuhan.

Não conheço uma única entre as incontáveis instituições que colaboraram na construção da fábula do pangolim que tenha tido a honestidade de declarar o engano e pedir desculpa por ter participado na manobra de desinformação, o que, quanto a mim, só pode ser explicado pela má-fé ou pela noção geral de impunidade que nos foi trazida nesta época de desinformação universal.

Ninguém está livre de se enganar e de involuntariamente contribuir para a propagação do engano, mas o que não é eticamente aceitável é não reconhecer a responsabilidade e não reagir em consequência.

A decisão do G-7 de pedir à OMS para olhar outra vez para a história do pangolim é a mais hipócrita das possíveis decisões, porque não é possível a ninguém, por mais desatento que esteja, deixar de perceber que a fábula do pangolim foi justamente orquestrada pela dita OMS, com a colaboração de autoridades sanitárias chinesas, americanas e europeias, e que a OMS é a última das instituições de onde se pode esperar alguma verdade nesta matéria.

Mas, posto que o pangolim foi remetido a tema de safari fotográfico no delta do Cubango (de onde não deveria ter saído), olhemos então agora para a nova vedeta, a variante indiana – por ter sido identificada em primeiro lugar na Índia nos finais de 2020 – e que a OMS, a 31 de maio deste ano, resolveu rebaptizar como delta.

  1. Alerta delta

Se o vírus de Wuhan nunca pode ser chamado pelo nome, a variante indiana levou mais de seis meses até ser rebaptizada como delta – por coincidência ou não código para o nível mais elevado de alerta na defesa norte-americana.

Que os vírus sofrem permanentes mutações durante uma epidemia é algo que é hoje do conhecimento generalizado e é um facto de que eu – amador na especialidade, mas que segui o assunto quando no Parlamento Europeu dirigi o intergrupo do bem-estar animal – me apercebi da importância a propósito da gripe das aves que segui com alguma atenção em função da importância da pecuária para as zoonoses (que foi a forma como historicamente se desencadearam a generalidade das doenças infecciosas).

Na verdade, só com a leitura da literatura científica de divulgação (especialmente o artigo de Wade que citei na minha crónica do Tornado de há duas semanas) me dei conta que um dos factores que cedo contribuiu para a convicção da maior parte dos cientistas de que o vírus do SARS-2 é fruto de engenharia genética foi o do número relativamente reduzido de mutações conhecidas que ele sofreu antes de se tornar numa pandemia (o SARS-1 sofreu dezenas antes de se tornar um problema grave para a saúde do homem).

As mutações do vírus são numerosas e vão normalmente no sentido de o tornar mais contagioso (se não for esse o caso, a mutação não tem sucesso) e adaptado à sua vítima, algo que é também do conhecimento geral e que leva a que as vacinas da gripe comum tenham a sua validade limitada a alguns meses.

A estratégia comunicacional seguida pelas autoridades sanitárias de negar qualquer valor paliativo às numerosas substâncias disponíveis no domínio público (ou seja, sem render direitos de propriedade às empresas farmacêuticas) que se revelaram eficazes em minorar os efeitos do vírus e de martelar que a salvação estava na vacina, quando tudo apontava para que, tal como no caso da gripe, a vacina fosse na melhor das hipóteses uma solução temporária, só me parecia fazer sentido como estratégia de negócio, e nunca como estratégia sanitária.

Mas da mesma forma como despudoradamente mentiram sobre a substância e não hesitaram em vilipendiar os cientistas e médicos que procuraram minorar os efeitos da pandemia viral através de medicamentos baratos e conhecidos (hidroxicloroquina ou ivermectina), nunca essas autoridades disseram que qualquer vacina a ser encontrada teria provavelmente um período limitado de eficácia.

Não se trata de promover debates toxicamente polarizados sobre vacinas, debates que só servem para as promover de forma acrítica, mas antes de ver os seus méritos relativos, tanto do ponto de vista estritamente sanitário, como do ponto de vista da utilização de recursos, e naturalmente não permitir que nesse balanço seja feito com base em premissas falseadas, por quem se esmerou na construção da fábula do pangolim e similares.

E o que se constata é que mais uma vez os moldadores da opinião pública tudo estão a fazer para que esse debate não possa ter lugar de forma serena, independente e informada; sendo o ‘plano delta’ um dos sintomas.

Em todas as pandemias, as variantes mais contagiosas substituem as menos contagiosas, e isso que não pode surpreender ninguém (ver o especialista belga em saúde pública, Christophe de Brower) é o que se verifica com a actual, onde as variantes mais antigas foram sendo substituídas pela inglesa (rebaptizada de alfa) e agora pela indiana, havendo mesmo já a que se denomina de ‘delta plus’ (porque não a letra seguinte do alfabeto grego?).

Por outras palavras, o que isto quer dizer é que ninguém pode seriamente dizer-se surpreendido por o vírus sofrer mutações, e por essas mutações substituírem as estirpes mais antigas, porque isso é o que acontece em qualquer caso, mas é exactamente isso o que a comunicação social tem feito (por exemplo, aqui): insinuar surpresa por existir uma variante que substitui as antigas e por esta não reagir (ou reagir bastante menos) à vacinação.

A estratégia delta é a de prolongar o clima permanente de histeria desencadeado com a pandemia em que (1) se passa por cima do quem, porquê e como (2) se combatem as pequenas medidas de efeito paliativo em favor de (3) penitência destrutiva que abre as portas à solução salvífica da vacina e (4) no entanto, perante a enorme ‘surpresa’ da variante delta precisamos de (5) voltar à casa partida e recomeçar o filme outra vez.

Este estado de histeria permanente – já tem um ano e meio – é o ideal para que não se pondere cuidada, informada e independentemente, e estejamos sempre no domínio da emergência, da excepção; em estado de sítio.

  1. Alterar o rumo dos acontecimentos

A negação, ou recusa de aceitar a realidade, é um fenómeno humano banal, pelo qual procuramos fugir a uma realidade que nos é dolorosa ou pelo menos desconfortável, mas pode assumir um caráter diferente, de desinformação e deslegitimação de uma realidade que queremos esconder não necessariamente apenas para fugir a situações de desconforto, mas de forma agressiva: assassinar e passar por inocente!

O negacionismo é uma expressão tradicionalmente usada relativamente ao holocausto e que começou por ser praticada pelos seus autores que se preocuparam em esconder a dimensão do que fizeram. Aqui, mais do que uma cegueira psicológica, está-se perante a vontade de absolver acções criminosas.

O abuso da expressão para designar os que têm opiniões diferentes começou a ser feito em grandes dimensões com as ‘mudanças climáticas’ e voltou a ser usado em larga escala para designar todos os que discordam do guião oficial da pandemia, seja porque a valorizam de forma diferente ou mais frequentemente porque discordam da estratégia seguida para lhes fazer face.

Um dos efeitos perversos deste abuso de linguagem é o de meter no mesmo saco os que criticam o excesso de testes, por serem pouco fiáveis e conduzirem a medidas draconianas de enclausuramento, e dos que criticam a falta de testes, por estes serem necessários aos cuidados hospitalares, nomeadamente por tratamento com substâncias paliativas de baixo custo. Convenhamos que é absurdo chamar negacionistas a estes dois grupos de pessoas.

Daqui se passou também ao abuso de expressões como conspiracionismo e vitimização. Sendo uma verdade insofismável que tendemos a ver conspirações onde apenas temos a considerar encadeamentos de factos relativamente independentes, e que é mais comum a sensação de ser vítima do que a realidade de o ser, daqui não podemos deduzir que toda a suspeita de conspiração é conspiracionismo e que toda a vez que nos sintamos vítimas o façamos por psicose ou por intenção malévola de culpabilizar outrem.

Como tenho defendido nas várias crónicas que tenho aqui publicado, creio que enfrentamos uma psicopatia colectiva mais do que uma pandemia, e que essa psicopatia é alimentada pela comunicação, mas não é criada pela comunicação. Nesse sentido, não acho que a pandemia possa ser vista como conspiração, mas isso não quer dizer que não haja conspirações no seu seio.

E o melhor exemplo é esta fábula do pangolim que nunca poderia ter feito caminho sem a participação de actores em instituições e latitudes diferentes de forma concertada.

Se ultrapassarmos esta fase de psicose colectiva, e se começarmos a raciocinar serenamente e a procurar explicações para o que acontece, iremos necessariamente procurar responder ao quem, como e porquê, através de rigorosos, equilibrados e independentes inquéritos, que não podem naturalmente ficar a cargo dos principais suspeitos.

Depois há que olhar para o fenómeno de cartelização que foi frequentemente na história o responsável pelos grandes dramas da humanidade. O conflito de interesses entre as grandes empresas tecnológicas, as grandes empresas farmacêuticas, os reguladores do sistema de saúde e investigação, a imprensa e as organizações que supostamente representam a sociedade civil é o nó górdio de qualquer investigação digna desse nome.

Finalmente, há que voltar a dar aos profissionais de saúde pública – na sua maioria independentes de quaisquer interesses – o papel que lhes foi tirado em nome da urgência pandémica, para que eles possam aconselhar sobre as prioridades e as políticas a levar a cabo não para viver eternamente, mas para viver prolongadamente, com qualidade de vida e com saúde.

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