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Terça-feira, Janeiro 31, 2023

O “documentário” ainda existe?

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

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… ‘A saída da fábrica Lumière em Lyon’ e ‘A chegada de um combóio à Estação de Ciotat”.

Também por cá, o pioneiro Aurélio da Paz dos Reis começou por filmar, em 1896, ‘A saída do pessoal da fábrica Confiança’ a que se seguiu uma série de títulos de registo do real.

Pode-se por isso dizer que o documentário precedeu a ficção, mas por muito pouco… Os mesmos Lumière produziram em 1895 ‘L’Arroseur Arrosé’ que, nos seus 49 segundos, constitui a primeira comédia burlesca da História do Cinema.

Serve este introito para mostrar que a dicotomia documentário/ficção é algo que atravessa os 120 anos de existência desta forma de expressão.

No campo da ficção foi-se assistindo à divulgação (através das imagens) dos grandes clássicos da literatura, mas em paralelo foram surgindo os argumentos originais, os guionistas, e a catalogação dos filmes em géneros: comédias (de várias cores!…), dramas, históricos, policiais, filmes de aventuras, de amor, musicais, de ficção científica, …

O documentário também se foi desenvolvendo e ramificando: jornais de actualidades, reportagens de guerra, filmes de propaganda dos regimes políticos, incursões na vida animal e na natureza, promoção turística, filmes didáticos e de divulgação científica, filmes antropológicos e etnográficos, biografias de gente ilustre, …

A divisão ficção/documentário

Mas, e provavelmente desde sempre (isto é, desde que o cinema existe), esta divisão ficção/documentário nunca foi completamente estanque. E isso leva-nos a encontrar muitos aspectos documentais nos filmes de ficção e elementos ficcionais em muitos dos mais famosos documentários.

Dziga Vertov, Robert Flaherty, Leni Riefenstahl, Joris Ivens, Jean Rouch e outros nomes incontornáveis do documentarismo não terão apartes ficcioniais nos seus filmes. Será a “pureza” da captação das imagens imune à manipulação feita, por exemplo, através da montagem ou da banda sonora?

E por cá? ‘Douro, Faina Fluvial’ é um documentário? ‘Aniki-bóbó’, que até é baseado numa obra literária, é apenas um filme de ficção? Os filmes de António Reis são documentários ou ficções? E o ‘Belarmino’ de Fernando Lopes é, só, um documentário? E o cinema de António Campos? Mais recentemente, como catalogar ’Lisboetas’ de Sérgio Tréfaut, ‘Ruínas’ de Manuel Mozos ou “Amateur” de Olga Ramos?

Se a dicotomia nunca foi absoluta, ela vai-se esbatendo cada vez mais. Já quase não se encontra um filme dito de ficção que não comece com uma legenda que informa o espectador que o que se vai ver a seguir é baseado em factos reais. Do mesmo modo, muitos trabalhos apresentados como “documentos do real” estão muitas vezes recheados de situações encenadas ou pura e simplesmente inventadas. Terão razão aqueles que afirmam ser a ficção a melhor forma de fixar a realidade?

3ª edição do Porto/Post/Doc

Todas estas considerações ocorreram-nos a propósito da terceira edição do Porto/Post/Doc a decorrer, no Porto, entre 26 de Novembro e 04 de Dezembro, no Teatro Rivoli, Passos Manuel e Maus Hábitos.

O programa do certame, vasto e aliciante, com mais de cem filmes, dedica especial atenção a trabalhos de escolas, e inclui debates, master, festas e concertos.

Em destaque a obra do brasileiro Erik Rocha, filho de Glauber Rocha, e autor de uma significativa filmografia que inclui documentários e filmes de ficção. Se calhar estamos a entrar em contradição ao fazer esta distinção…

Diz-se no cartaz do festival que “as nossas histórias são reais”. Esta é uma mostra focada no cinema documental, mas percorrendo a programação é fácil encontrar títulos que escapam a uma catalogação fácil em documentário ou obra de ficção e outras em que esta última assume um papel importante, por vezes preponderante.

Um exemplo entre muitos outros, a vencedora da Semana da Crítica de Cannes: ‘Mimosas’ de Olivier Laxe. Espanhol, nascido em Paris de uma família de emigrantes galegos, e residente em Marrocos, Oliver Laxe oferece-nos uma viagem mística pelas montanhas daquele país do Norte de África, uma viagem geográfica que é também uma viagem interior. Uma caravana acompanha um homem que faz uma última viagem para morrer na terra natal. Uma odisseia através das montanhas, em que estas se apresentam como um cenário sumptuoso (esta será a caracterísca documental), mas uma história escrita, encenada e representada.

O caso mais caricato é ‘Under the Sun’ do russo Vitaly Mansky que aceitou um convite do governo norte-coreano para fazer um filme naquele país. A história está centrada numa menina e na sua família, no ano em que ela vai entrar para a “organização da juventude”. Tudo neste filme é encenado. O que à partida seria uma ficção é afinal um documentário. Um documentário sobre um país que todo ele é uma ficção dramaticamente real.

Este filme trouxe-nos à memória um outro que vimos em San Sebastián em 2015, ‘The Propaganda Game’, documentário feito na e sobre a Coreia do Norte, do espanhol Álvaro Longoria. Para mostrar que naquele país existe liberdade religiosa as autoridades levaram-no a filmar uma missa católica. Mais tarde o realizador soube que o ‘padre’ era um actor a quem tinham encomendado a representação!

Verdade ou ficção? Eis a questão.

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