Diário
Director

Independente
João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Dois livros no mesmo dia

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Chegaram no mesmo dia, pelo nosso carteiro de sempre, antigo e já de há anos amigo. Deve saber mais do que leio do que eu própria.

São dois livros pequenos mas tão grandes, que nos deixam tanto espaço na cabeça, para ler e pensar…

Comecei pelo do Paulo da Costa Domingos: ILÍCITO. Contra o escuro da capa um mandala rasgado. E rasgada é a exclamação ora de desafio, ora de espanto, ora de afirmação contundente no discutir com um Mestre – quem será ele? um Deus que se escondeu? um Deus distraído do mundo e sempre ausente? – Abro ao acaso e leio:

Mau grado o Diabo
ainda não ter tocado
a carne da sabedoria
no pomar sedento,

os ares do negrume, 
a ignorância, em absoluto
cobrem a face da Terra,

que no escuro encost’a 
a boca ao espelho, ao cardo:
no escuro a víbora toca.
(p.12)

Aqui se poderia evocar o mal, já presente no Éden criado para uma aprazível eternidade, que nunca chegou a existir. Uma víbora, com o seu veneno, chamemos incitamento ao proibido, já ali estava para desafiar o par primordial.

E aquele Deus que pairava, escondido por ali, surge e castiga. Volta o Ser criado às águas perigosas:

É um ribeiro, puro disfarce, uma harpa a música que a víbora tocava, e eis que o poeta confessa então o que o aflige:

Um mar gigante com arca,
uma metrópole flutuante,
quarentena de aventura.

Eu sozinho, mestre, perplexo
ante a ciência que me deste
do compassso, pétala e agulha.
(p.13)

A dimensão bíblica de um Génesis que criou e logo castigou, um mestre de letra pequena – porque na verdade desvia, não conduz, e esse desvio é um rasgão na plenitude da alma, no Todo que dividiu, esse é o pecado da Ilicítude anunciada no título de um livro que a partir de um conceito que a razão consegue definir, se torna tão largo, tão grande e tão indefinível. Não bastará buscar no dicionário. Só no livro da Vida, onde o que é lícito e o que é ilícito se contrapõem, mas não se completam, pois, diz o poeta: “nunca mais à infância regressaremos” (p.14)

Quase que evocando um Hoelderlin que se tornou cada vez mais perdido na Memória que tinha celebrado, Paulo afunda o seu pensamento, ilícito, pois é de poesia que se trata e esta é uma área que não convoca o lícito,  o regulado e autorizado, mas sempre o marginal – eis então o que continua a dar-nos para que o seu (nosso) fio não se perca (atrás já tinha dado uma agulha…):

Troquemos de lendas, mitos, ideais,.
Troquemos de tormento, de pulsação
felina, de borzeguim e gravata. Perdemos

a memória e sinapses na separação
do conhecimento em luz que
decompusemos, mestre, entre teu jardim e os demais.

Nunca mais à infância regressaremos.

Troquemos de pontas de fogo,
 troquemos de contas de vidro, 
troquemos de contas de vidro…
(p.15)

E já mais adiante, na leitura, a afirmação da sua vontade ilícita, da negação necessária: quem não renega o mestre não encontra o seu caminho:

Consegues imaginar
a muita incerteza
do teu servo? 
erguendo a cabeça
para te negar.

Na aridez da multidão
houve uma arquitectura,
ora casa que se mura >
ora verbo da libertação,
com um fundo poço 
para o coração da culpa.
(p.16)

Cabe ao leitor, agora acabar a leitura. Fiquemos com a pergunta:

“consegues imaginar /a muita clareza / do teu aluno?”

O que aconteceu entretanto é que a infância, recuperada por meio da negação de um todo já dividido, – crescer não é dividir? não andam por aqui pecado e salvação? –
“a infância lança, então, suas contas de vidro / na boa cova, por um nome novo”.

E conclui:

E aqui eu pude, por fim, descalçar-me:
nem idolatria nem religião.
Na fresca escuridão, uno.
(p.20)

Leu Hesse, de certeza, pois o Paulo foi sempre grande leitor, em meio ao  grande amor à poesia. As contas de vidro podem ser berlindes, mas podem ser as do rosário do Jogo das Pérolas (outros traduzem contas) de Vidro, que Hesse publicou, também na ilicitude do seu pensamento heterodoxo, guiado por um Músico, mestre de doutrina e mística taoísta.

II

Last, but not least,

Pequena Lua Cheia de Sol, como já disse noutro lugar, uma Renga ao gosto japonês, escrita a 4 mãos por dois poetas da EUFEME, Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes. Qual deles comeu uma ou outra, não é para distinguir é para saborear gomo a gomo deixando nas mãos aquele perfume especial, ao mesmo tempo tão fresco e doce.

Perfume que permanece, não lavemos as mãos…Os autores explicam, numa nota prévia: “talvez por ser inverno, a nossa palavra preferida é tangerina. Harmoniosa (traz o tanger dentro de si), juvenil, pequeno sol feito fruto a espreitar a manhã. Também gostamos muito de tangerineira, mãe abundante de tantas meninas de sereníssima doçura”…

Abrem o livro com um poema da infância:

Quando as mãos
cheiravam a tangerina
o inverno começava
 a despir o capote

Os haikai obedecem a normas, que podemos, é certo, não respeitar. Mas aqui foi respeitada a indicação da estação das tangerinas: o inverno.

Passar, como estou a fazer, de um livro conceptual, de conceitos que terei de entender, como o de Paulo Domingos, para um livro de imagens e sensações, o perfume, a côr, o sabor, é extremamente repousante.

Este acaso que me trouxe os dois livros foi um acaso feliz: preciso de pensar, para existir (e a culpa não será do Descartes), mas preciso de sentir, sem por isso me sentir presa a nenhum sensacionismo teorizado pelos Modernistas. É mais simples, é mesmo quase banal e corriqueiro, o do prazer de descascar uma tangerina, ao ar livre, colhida da sua árvore, a meio da manhã ou da tarde, num das muitas fugas que fazem as crianças, fartas de estar em casa.

Uma tangerina
vale por mil metáforas

Sim, em certa medida. Mas nada me impediria, com Magritte, de escrever “isto não é uma tangerina”. Porque na verdade o que ali está, no Haiku, é uma representação da realidade, uma imagem, e não um fruto real que eu possa saborear. Posso imaginar, não mais.

o gomo da tangerina
 desenha um sorriso
 na mão do poeta

Fruto e imagem (representação) dele, o desenho e o som das sílabas que o dizem, no seu todo, transformam a tangerina em momento único de felicidade. Esse é o poder da imagem, na ausência do fruto real que a provocou.

Há uma toada real, de vez em quando, de canto tradicional popular, nos versos que vamos lendo. Mas a mim interessou-me mais, e mais uma vez, a questão da imagem, neste caso redonda e solar, e trazendo à memória inúmeros prazeres que na vida se perdem, ou de novo se recuperam, com a faculdade de evocar. Revejo na tangerina o redondo da infância, um todo que não se perdeu ainda do todo do seu ser, a árvore maternal que a folhagem protege enquanto o fruto e a criança crescem. A seu tempo irão amadurecer.

tomo a liberdade de retomar aqui uma reflexão de outrora, sobre imagem e representação. Podemos ler ou não ler, ficando apenas pela apetecível tangerina que não nos dão a comer…

Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.

Falando de imagem/representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão.

Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.

E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.

Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).

O prefixo in, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente). Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade.

A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e  fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).

Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana.

Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente. Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.

Mas fomos avançando um pouco mais.

Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:

  • em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
  • e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)

E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?
Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI? Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:

“Elle est retrouvée.
Quoi? – L’Éternité.
C’est la mer allée avec le soleil”

Ou, neste caso, a lua fugida com o sol.


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -