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Sexta-feira, Setembro 30, 2022

E ainda o sonho do Império Otomano?

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

A Turquia na Síria, na Líbia e no Corno de África

A Turquia começou a intervenção ativa no conflito na Síria dois meses após o início dos protestos de rua de 2011. Ajudou a organizar uma reunião de grupos da oposição síria em Istambul e recrutando terroristas para mais tarde lhes chamar de Exército Livre da Síria (FSA), informa ainda e também o Irish Times.

Irish Times

“A agitação prolongada permitiu a Ancara reforçar ambições territoriais na Síria”, afirma o jornal.

Em operações militares lançadas em 2016 e 2018, a Turquia invadiu cidades estratégicas no norte da Síria com a ajuda das ligações da Turquia a grupos terroristas.

Mais importante do que atingir a população síria parece ser a ideia megalómana de recriar um império otomano.

Por isso estas tropas de ocupação deveriam, quanto antes melhor, evacuar e retirar-se dos territórios soberanos sagrados da República Árabe da Síria.

O presidente Erdogan declarou ontem: “Não deixaremos a Síria até que o povo da Síria diga ‘obrigado, vocês podem sair agora'”, Isto num comício em Istambul, de acordo com o Sputnik.

Sputnik

Mas alguém convidou Erdogan a entrar na Síria? Recebeu algum mandato internacional para o fazer? A Turquia faz parte de alguma coligação encabeçada pelas Nações Unidas?

Emmanuel Macron confrontou seu colega turco, Erdogan, com seu aviso ainda mais direto ainda de que o comportamento recente de Ancara não é compatível com os membros da NATO.

Já na Líbia a presença de tropas turcas se apresenta de forma mais legalizada.

Atiradores de elite turcos e grupos de tropas especiais lutam nas fileiras do governo do Acordo Nacional da Líbia (GNA) na capital de Trípoli, disse uma fonte militar do rival Exército Nacional da Líbia (LNA).

“Vimos soldados turcos lutando no chão em direção a Khallet al-Furjan, em Trípoli, entre as milícias armadas da GNA. Vimos com nossos próprios olhos… atiradores de elite e grupos de assalto turcos”, disse a fonte citada pela SPUTNIK. Acrescentando:as unidades do Exercito Nacional Líbio ganham controle sobre novas posições em Tripoli diariamente. “O progresso é lento, mas contínuo”.

No início do dia de ontem, 20 de dezembro, houve informações de que a Turquia havia enviado as suas forças armadas, conselheiros militares e equipamento militar para Trípoli para apoiar o GNA, apoiado pela ONU. A medida intensificou-se depois do primeiro-ministro da GNA, Fayez Sarraj, ratificar na quinta-feira o acordo de cooperação militar com a Turquia feito em novembro e aceitar a oferta do país de enviar tropas para repelir a ofensiva da LNA. A situação na Líbia aumentou nas últimas semanas, quando Haftar anunciou uma ofensiva em Trípoli, realizada pela GNA. A cidade já foi o campo de batalha de um ataque semelhante em abril. A Líbia está dividida entre dois governos rivais desde 2011, quando seu antigo líder Muammar Gaddafi foi derrubado e morto. A parte oriental do país agora é governada pelo parlamento e pelo LNA de Haftar, seu aliado, enquanto o GNA, reconhecido pela ONU, opera no oeste do país.

No Corno de África a Turquia participa regularmente em novos debates sobre influência estrangeira na região, assim como especulações sobre seus motivos. Mais um contágio tóxico importado do Oriente Médio – a crise do Golfo que, desde 2017, colocou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Egito e o Bahrein contra o Catar e seu aliado Turquia.

Enquanto Ancara declara ser um poder benevolente impulsionado por uma política externa “empreendedora e humanitária”, os rivais do Golfo dizem que os movimentos do presidente Recep Tayyip Erdogan no Corno de África refletem uma busca perigosa por um renascimento do Império Otomano.

Brookings

Atatürk

Erdogan visitou Mogadíscio pela primeira vez em 2011 em plena devastação pela fome e foi o primeiro líder não-africano a visitar a capital devastada pela guerra em duas décadas. O que começou como uma iniciativa principalmente humanitária transformou-se numa política mais abrangente: Ancara aumentou o financiamento da ajuda, iniciou projetos de desenvolvimento, abriu escolas e assumiu um papel de liderança na definição da agenda de construção do estado, incluindo a abertura de uma instalação militar considerável para treinar soldados do governo somali. Hoje, as empresas turcas operam os portos marítimos e aéreos de Mogadíscio, os mercados somalis estão cheios de produtos maid in Turkey e a Turkish Airways voa diretamente para a capital – a primeira grande transportadora internacional a fazê-lo.

Hoje em dia é fácil confundir bondade com negócios e interesses. Aqui, no Portugal dos Pequeninos temos o Banco Alimentar. Além, os antigos impérios esforçam-se por ir buscar a outros países vantagens económicas, políticas e financeiras.

E a informação difundida sobre todos estes assuntos, tem de ser catada no meio das ervas daninhas, por olhos e ouvidos não ingénuos.

Após o fim do Império Otomano, entre 1908 e 1922, um dirigente turco, Mustafa Kemal Atatürk, foi um estadista revolucionário, autor e fundador da República da Turquia, servindo como seu primeiro presidente de 1923 até sua morte em 1938.

Aprovaria ele hoje a política externa da Turquia de Erdogan?


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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