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João de Sousa

Sábado, Janeiro 22, 2022

Portugal profundo

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

Por detrás do nobre povo cantado no hino nacional, há um outro, mais real, mais brutal, não raro desconhecido, frequentemente desprezado pelas gentes urbanas. Não é o povo dos aristocráticos leões rompentes e bravos touros de Camões, antes o das humildes enguias.

Ei-las.

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes da cidade que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Meixão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada…

As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”

Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente das Finanças, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, a mesma que as leva anualmente a Fátima: o regresso ao Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil…

Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar…

Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao canto de sereia dos governantes!


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