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Quarta-feira, Julho 28, 2021

A Economia de Casino. Os instrumentos

Arnaldo Xarim
Economista.

Ao contrário do que seria normal esperar, os principais bancos e muitas outras empresas financeiras dedicam grande parte dos seus recursos a actividades que não trazem qualquer benefício à economia real, mas que acarretam consequências negativas para toda a sociedade; elevaram as estratégias de especulação monetária à categoria de um jogo que destrói economias e pessoas.

Um dos instrumentos usados e uma das mais antigas actividades bancárias é a compra e venda de moeda no mercado cambial. Segundo dados do BIS, em 2019 o comércio nos mercados de câmbio internacionais foi superior a 6 biliões de dólares por dia, o que totaliza mais de 2 triliões de dólares por ano, ou seja, mais de 100 vezes superior ao volume total do comércio internacional de bens, que nesse ano foi de apenas 19 biliões de dólares e muitas vezes superior aos 133 biliões de dólares registados pelo PIB mundial em 2019. A verdadeira dimensão destes números ganhará uma dimensão mais clara se dissermos que por cada dólar de comércio de mercadorias há 100 dólares de troca de moeda, o que significa que quase todo o mercado cambial é pura especulação, e que na realidade tudo isto não passa de um eufemismo para jogos de azar.

Até a década de 1970, esse comércio de moedas era muito menor e era usado para financiar o comércio genuíno entre os países. Infelizmente, o sector financeiro percebeu que isso poderia ser usado como uma forma de jogo para obter lucros enormes e que comprar e vender grandes quantidades de moeda pode fazer com que as taxas de câmbio mudem muito rapidamente. Uma queda repentina no valor de uma moeda pode desestabilizar toda a economia de um país, à medida que os preços dos produtos básicos aumentam e nas economias mais débeis, isso pode causar pobreza generalizada praticamente da noite para o dia.

Esse sistema de manipulação das moedas mundiais causa sérias crises financeiras com bastante regularidade e cada vez mais frequentes nos últimos quarenta anos. Nos finais do século passado, as moedas da Tailândia, Indonésia e Coreia do Sul viram o seu valor cair vertiginosamente naquela que ficou conhecida como a Crise Financeira Asiática, que originou profundas crises sociais (como a que varreu a Indonésia quando a moeda nacional caiu para quase um décimo do seu valor anterior), aumento do desemprego (estima-se que 24 milhões de pessoas perderam os seus empregos na Ásia durante esta crise) e da pobreza enquanto empresas de países ricos aproveitavam para comprar um grande número de empresas asiáticas a preços de saldo.

George Soros (Wikipédia)

Outro nefasto exemplo da moderna economia de casino ocorreu em 1992 quando, na chamada Quarta-feira Negra (16 de Setembro), George Soros lançou um ataque especulativo contra a libra inglesa que lhe terá rendido mil milhões de dólares de lucro e custado 3,4 mil milhões de libras aos contribuintes britânicos. Esta simples e inocente aposta na desvalorização de uma moeda terá forçado o Reino Unido a abandonar o Sistema Monetário Europeu – acordo estabelecido em 1979 através do qual a maior parte dos países da então Comunidade Económica Europeia aceitaram articular as suas moedas para evitarem grandes flutuações nas respectivas taxas de câmbio – e, possivelmente, a rejeitar mais tarde a entrada no Euro. Vinte anos depois destes acontecimentos até já o ultraliberal FMI reconhecia a necessidade de algum controle dos fluxos de moeda.

Sobrepondo-se às antigas e simples estratégias de arbitragem, as mais recentes actividades especulativas conheceram grandes desenvolvimentos no último quartel do século XX, em especial com a criação dos chamados produtos derivados (ou derivativos) que não passam afinal de novas e mais complexas formas de especulação. Desde os simples contractos de futuros – aqueles onde comprador e vendedor acordam um preço a pagar no futuro por um a bem a então entregar – às mais elaboradas opções – contractos onde comprador e vendedor acordam na possibilidade de realizar uma troca no futuro a um preço anteriormente acordado, o que dá ao comprador a opção de aquisição futura – ou aos swaps – contractos que combinam uma troca de posições, com diferentes riscos e rentabilidades, entre investidores e que pode ter como activo subjacente moedas, mercadorias ou activos financeiros –, que tiveram nos seus primórdios a intenção de protecção contra os riscos de mercado, rapidamente se chegou à elaboração de produtos derivados altamente complexos e opacos, como os CDS (Credit Default Swap) que estiveram na base das fraudes cometidas durante a crise sistémica global despoletada em 2007 pelo rebentamento da bolha especulativa dos créditos imobiliários conhecidos como subprime.

Quando os agentes financeiros passaram a usar produtos derivados para apostar no preço futuro de todo o tipo de bens, como alimentos e petróleo, começaram a influenciar os seus preços a ponto de aumentarem a pobreza global mediante o simples encarecimento dos bens alimentares, o que levou a que aqueles produtos derivados começassem a ser descritos como “armas financeiras de destruição em massa”, devido à potencial devastação que podem causar; e se a volatilidade artificialmente criada nos mercados se traduz nas economias mais avançadas na perda de empregos e na falência de empresas, os seus malefícios surgem nas economias mais débeis sob a forma de fome, doenças e morte.

James Tobin (Wikipédia)

Esta insanidade poderia ser controlada mediante a simples aplicação de taxas sobre as transacções especulativas (a chamada Taxa Tobin, proposta pelo Nobel de Economia James Tobin e que incidiria sobre as transacções financeiras internacionais de carácter especulativo) ou, de forma mais incisiva, mediante a limitação do volume de contractos de derivados a uma percentagem do volume dos activos subjacentes; mas os governos das principais economias – seja por convicção, seja pela estrita dependência do sector financeiro – têm-se oposto a semelhante solução, levando a que os problemas gerados pela economia de casino não parem de se agravar.

 

Veja A Economia de Casino. As estruturas

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