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João de Sousa

Terça-feira, Janeiro 18, 2022

Enfermeiros: A greve absurda

J. A. Nunes Carneiro, no Porto
Consultor e Formador

Uma declaração de princípio antes de reflectir sobre a greve dos enfermeiros que parece nunca mais acabar. Por princípio, sou favorável ao direito à greve, que é uma das armas que os trabalhadores podem usar para reivindicarem os seus direitos e defenderem os seus interesses.

Como é óbvio, acho que é um direito fundamental e livre que só deve obedecer a um conjunto de regras estabelecidas pela legislação.

Para mim também é claro que há situações em que as greves não deviam existir. Profissionais como polícias, médicos ou enfermeiros deveriam ter restrições (ou até impedimentos legais) quanto a este direito em função do tipo de actividade que desenvolvem e dos serviços que prestam à sociedade. Não me parece lógico que a saúde e a segurança de todos nós possam ser postos em causa através desta forma de luta.

Neste contexto, a actual greve dos enfermeiros parece-me absurda pois, mais do que expressar legítimas aspirações a que esta classe profissional ambiciona, está a prejudicar diariamente a saúde de milhares e milhares de pessoas. 

Pior: os sindicatos envolvidos e os profissionais não se preocuparam sequer em assegurar o pleno cumprimento dos serviços mínimos legalmente estipulados.

Tenho grande dificuldade em estar minimamente de acordo com esta forma de actuação em que trabalhadores olham mais depressa para os seus interesses de grupo em vez de, pelo menos, assegurar as suas obrigações com pessoas (também elas trabalhadoras…) que delas tanto precisam: doentes graves e intervenções cirúrgicas urgentes ou mesmo inadiáveis.

Uma outra questão que me choca é a do financiamento dos grevistas através de um fundo cujo origem ainda não é transparente e que só pode suscitar legítimas dúvidas. Quem o criou? Quem o financia? Porque é que os nomes das pessoas que o têm financiado não pode ser divulgado? O que têm a esconder? 

Finalmente, a questão da ameaça de entrada em greve de fome do Presidente de um dos sindicatos de enfermeiros. Qual o sentido e qual o objectivo desta dramatização e desta agudização do conflito? 

Um bom princípio em gestão de conflitos é nunca abrir uma porta sem se saber como a poderemos fechar. A iniciativa pode dar uma excelente reportagem de jornalistas ávidos de sensacionalismo,  drama e emoções… Mas, de que forma contribui para a solução do problema?

Já agora, seria interessante que os mesmos jornalistas que tanta atenção “jornalística” têm dispensado à greve e aos grevistas dedicassem também algum tempo a ouvir e relatar os verdadeiros dramas de doentes que viram as suas cirurgias adiadas. Que relatassem as situações ilegais em que se adiaram cirurgias que, pela sua urgência e importância, estavam ao abrigo dos serviços mínimos.

Em conclusão, considero lamentável que se use o direito à greve desta forma absurda e irresponsável. Nenhum direito laboral deveria sobrepor-se ao direito à saúde dos outros cidadãos. Por muito justas que sejam as reivindicações dos enfermeiros, esta é a melhor forma para que se tornem mesquinhas e insensatas aos olhos da sociedade e de todos nós.


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