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Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

O erro de português e a arrogância de classe

Christiane Brito, em São Paulo
Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

O que me espanta não é a palavra grafada com “ç” em vez de “s”, mas a publicidade que se deu ao erro.

Christiane de BritoSe alguém me pedisse, eu poderia fazer uma longa lista de placas de sinalização e, principalmente, anúncios publicitários com erros de português.

A lista tenderia ao infinito se eu incluísse os “veículos” jornalísticos que grafam absurdos.

Não pactuo com eles, aliás, acho que checar dicionário e gramática antes de divulgar um informe público é altamente recomendável.

Mas questiono o fato de um erro banal, corriqueiro nas redes sociais e até mesmo em correspondência corporativa, se tornar manchete de jornal.

Ora, mais banal ainda é o texto dos livros que integram as listas dos “mais vendidos” aqui, no Brasil. Eles refletem o pensamento acrítico e o modismo da categoria “jovem adulto”, maciçamente povoada por zumbis e princesas, nerds que se tornam superpopulares e doentes terminais que vivem romances perfeitos no leito de morte.

O gênero jovem adulto eleva youtuber (influenciador digital, em outras palavras) ao status de “escritor”, mesmo que nunca tenha publicado livro (youtuber, a rigor, é especialista em comentários).

Por que estou falando desse tipo de literatura?

Porque o público que a consome com certeza não se incomodaria com o erro de português na já referida placa de sinalização. Que jamais se tornaria notícia em tempos passados.

Falo de tempos passados em que a classe média emergente estava no protagonismo social. Os representantes da alta classe média, à época, já torciam o nariz para o “português” dos emergentes, especialmente para a sua dicção. Reclamavam, mas eram minoria, resignavam-se.

placa-com-erro

Hoje, continuam minoria (numericamente), mas foram levados ao protagonismo político por conta do golpe da velha elite.

O interino Michel Temer, também denominado poeta, dá bom exemplo de como essa elite valoriza o vernáculo, pedante, em detrimento da boa comunicação. A ele se oporia o querido Carlos Drummond de Andrade, que sacramentou: “o mais hermético dos poemas destina-se à humanidade inteira”.

Ou seja, texto bom, ainda que literário, tem que ser inteligível, jamais um tratado de palavras difíceis e ocas.

Ocas, digo eu, porque o português elitista, que invadiu inclusive certa mídia, anda carente de substância, de “fundamento”, como dizem os poetas e escritores do Hip-Hop, tão criticados porque escrevem, dizem os seus críticos, como falam.

Eu discordo, digo que o escritor de periferia escreve como pensa e ele pensa muito mais inteligente e sensivelmente do que os que leram apenas os clássicos na escola. Do que os que estão lendo apenas autoajuda e literatura do gênero “jovem adulto”.

Tenho o palpite de que muitos dos nossos grandes autores, de todos os tempos, não se preocupavam nem estavam familiarizados com as idiossincrasias das reformas ortográficas.

Reforma ortográfica, parece-me, é mal de elite, assim como o investimento aumentado em segurança pública (em vez de educação, o que seria mais coerente).

Segurança é a principal bandeira de Donald Trump, o bilionário que já começou (mesmo antes de ser presidente) a mudar as regras do Partido Republicano. As regras gramaticais, no entanto, tenho certeza de que ele sempre respeitará, apesar de, eventualmente, plagiar conteúdos no discurso (sua esposa, Melania, foi acusada de copiar o discurso de Michelle Obama, atual primeira-dama).

Trump é um reconhecido falastrão (fala demais, fala apenas pelos seus, por sua soberba, mas diz que fala pelo povo).

Trump é a voz da elite, apolítica, apartidária, eloquente como o nazismo de Hitler.

A elite tem que zelar por suas riquezas, o rigor gramatical é uma delas, porque vem de berço junto com outras heranças.

Os preconceitos, a começar pelos linguísticos, ajudam a erguer o muro da intolerância social.

Na Babel bíblica, todos foram levados à violência e morte. Recordo Babel porque no Brasil quem não fala e escreve na língua do rei já começa a ser perseguido, inclusive os “terroristas” que se convertem ao islamismo e mudaram de nome. A chamada “operação Hashtag” levou hoje 10 pessoas à prisão.

Nota: a autora escreve em português do Brasil

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