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João de Sousa

Sábado, Outubro 23, 2021

Espaço para o cinema documental

José M. Bastos
Crítico de cinema

Uma, ‘Tiempo de História’, com produções oriundas de vários países e outra, ‘Doc España’ constituída exclusivamente por trabalhos de produção espanhola.

As questões culturais, seja através de biografias ou dos relatos do presente ou das perspectivas de acção futura de colectivos de teatro ou cinema, retratos de acontecimentos históricos mais ou menos remotos, aproximações às conquistas científicas, as mudanças climáticas, as transformações sociais, as consequências das guerras e as migrações são alguns dos temas das duas secções da SEMINCI expressamente dedicadas ao documentário, ambas com caráter competitivo e dotadas de prémios e júris específicos.

Uma, ‘Tiempo de História’, com produções oriundas de vários países e outra, ‘Doc España’ constituída exclusivamente por trabalhos de produção espanhola.

 

“Tiempo de Historia”

Histórias do franquismo (Ángeles con espada de Javier Rioyo, sobre a faraónica construção do Vale dos Caídos ou Palabras para un fin del mundo de Manuel Menchón, relato dos últimos dias da vida do professor e escritor Miguel de Unamuno), as sequelas na actual sociedade basca da hiperviolência que imperou até há poucos anos naquelas bandas (Bajo el silencio de Iñaki Arteta), as dificuldades de construção da paz na Colômbia (Colombia in My Arms, de Jenni Kivistö e Jussi Rastas), o drama dos ‘rohingyas’ que fugiram de Myanmar para escapar ao genocídio e procuraram asilo no Bangladesh (Errance sans retour, de Mélanie Carrier e Olivier Higgins), a substituição do domínio colonial espanhol nas Américas pelo imperialismo norte-americano e o cinema como propaganda (Epicentro, de Hubert Sauper) são alguns dos temas presentes por esta secção em que podem ser vistos filmes oriundos de Espanha, mas também produções da Finlândia, Argentina, Áustria, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Suíça e Alemanha.

Outros títulos desta secção:

 

Presença portuguesa nas curtas de “Tiempo de Historia”

Bustarenga, é o título de uma co-produção luso-francesa realizada por Ana Maria Gomes, rodada numa aldeia de São Pedro do Sul, perdida no meio dos montes. Ana, uma parisiense de origem portuguesa, solteira e a caminho dos 40, regressa todos os anos a Bustarenga onde os habitantes, preocupados com o seu futuro, lhe fazem ver que o tempo passa  e que ela deve procurar o seu ‘príncipe encantado’. Bustarenga participou nas recentes edições do IndieLisboa e no Curtas de Vila do Conde.

Outros títulos desta secção:

Um filme já sobre o COVID-19, e que acompanha a luta contra o coronavírus de um dos primeiros espanhóis a ingressar com esta doença numa Unidade de Cuidados Intensivos.

O júri de “Tiempo de Historia”

O júri de ‘Tiempo de Historia’ é formado pela realizadora Sally Gutiérrez, pelo produtor de documentários Joan González Herrero  e pela directora do Festival de Cine Documental Iberoamericano de Escócia, Mar Felices.

 

“Doc. España”

A secção “Doc. España” é, nesta edição, constituída por 14 filmes. Quatro deles são abordagens à biografia de grandes nomes da cultura espanhola.

Na passagem dos 80 anos sobre a morte do poeta, a realizadora Laura Hojman, aborda em Antonio Machado. Los días azules, a vida e obra deste grande nome da literatura espanhola que foi também uma figura incontornável da República e da resistência ao avanço e implantação do franquismo.

De  Marta Figueras y Susana Guardiola, Descubriendo a José Padilla, revelação da história de vida do compositor, em Madrid, Barcelona, Paris e Buenos Aires. Desde o início do século XX, escapando às duas guerras mundiais, dos tempos conturbados da república espanhola à guerra civil de Espanha. Os encontros com Mistinguett, Maurice Chevalier, Carlos Gardel e com a portuguesa Lydia Ferreira, aúltima mulher da sua vida e que o acompanhou até â morte.

Da obra de Padilla, classificada pela UNESCO de interessea universal e presente na banda sonora de mais de 300 filmes (de Woody Allen a Ozu, de Lubitsch a Ridley Scott)  o filme centra-se muito em títulos como  ‘Valencia’, ‘El Relicario’,  ‘Ça c´est Paris’ (que viria a tornar-se para os parisienses tão importante como o hino nacional francês)  e também  ‘La Violetera’,  escrito em 1914 e redescoberto no final dos anos quando ficou imortalizado por Sarita Montiel no filme com o mesmo nome.

Esse tema foi “roubado” por Charles Chaplin que o usou em “Luzes da Cidade” (1931) esquecendo-se de referir nos créditos o noime de Padilla. A justiça ao compositor espanhol foi feita em tribunal e Chaplin não ficou nada bem na fotografia. Uma nóda escusada num filme belíssimo.

Marcos Macarro Sender, realizou Marcos y Vida, um filme sobre o seu pai, o poeta Marcos Ana, que passou 23 anos como preso político nas prisões franquistas. O crítico cinematográfico Juan Carlos Rivas faz em El tiempo robado. Tomás Salvador González, uma homenagem a este poeta e escritor de Zamora.

No documentário En la frontera de lo desconocido, Gonzalo Gurrea Ysasi conversa com os físicos espanhóis que estiveram envolvidos na obtenção da primeira imagem de um ‘buraco negro’. As questões da ecologia são o foco de Éxodo climático, de David Baute, que conta o drama de três mulheres que se vêem obrigadas a emigrar depois de terem perdido todos os seus haveres devido às alterações climáticas, e de The Land of Azaba, de Greta Schiller, sobre um movimento mundial para fazer parar e retroceder a onda de destruição e extinção acelerada a que se assiste nos nossos dias e recuperar o equilíbrio ecológico do planeta.

Refira-se, a este propósito, que desde há alguns anos, a SEMINCI tem vindo a dedicar uma atenção muito particular às alterações climáticas. Existe até a atribuição do prémio “Espiga Verde” atribuído por um júri formado por especialistas em temas do ambiente, sendo que os dois filmes acima referidos são candidatos a tal distinção.

As temáticas de conteúdo social estão fortemente presentes em Perifèria, de Xavi Esteban e Odei A.-Etxearte, um trabalho sobre a recuperação de um bairro degradado dos subúrbios de Barcelona, e Tierra de leche y miel, de Gonzalo Recio, Héctor Domínguez-Viguera e Carlos Mora Fuentes, uma produção espanhola rodada em Sarajevo, Tiflis e Grécia, sobre a necessidade de deslocação massiva de populações em consequência da guerra.

Para além das biografias já citadas os temas culturais estão também em Próximamente últimos días, de Miguel Eek, dedicado a um espaço de exibição cooperativo com cerca de 1200 sócios, algo como um cine-clube, que actualmente luta pela sobrevivência e Spanish Shame, de Polo Menárguez sobre o grupo de teatro Club Caníbal.

Enquanto Jon Viar, com Traidores dá mais um retrato do recorrente ‘problema basco’ ao trazer para o ecrã a trajectória do seu pai que pertenceu à ETA e que agora renega o nacionalismo e condena a violência terrorista, Ignacio Acconcia em El niño de fuego, aborda la história de um sobrevivente de um acidente que lhe provocou queimaduras em 91% da superfície corporal.

Finalmente uma referência à produção luso-espanhola El viaje más largo de Manuel H. Martín, que se debruça sobre o desejo permanente da humanidade em ultrapassar as fronteiras do desconhecido, desta vez levando o espectador desde as vicissitudes (e a disputa entre Portugal e Espanha) que marcaram a primeira viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano até à disputa pela posição dominante na conquista do Espaço, entre os Estados Unidos e a União Soviética, até à chegada à Lua.

 

O júri de “DOC. España”

O júri esta secção é formado pela produtora e consultora Ana Amigo, pela artista multidisciplinar Nadia Hotait e pelo produtor e realizador Tomás Martínez Antolin.


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