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Sábado, Julho 20, 2024

Estamos tão carentes

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Apostaria muito em que todos os países são metáforas – nalguns deles pulsam Nações, que são metáforas dentro de metáforas.

Explicando melhor, serão metáforas nos seus limites geográficos e culturais mas sobretudo pelo duplo sentido que impõem às frases onde os evocamos, às formas sempre duais – dúbias, duplas – com que os sentimos. E vivemos. Um País é uma metáfora de mim. E eu metáfora dele. O que é para mim o País não será para o outro.

Quem me lê, por mais patriota, por mais arreigado no País, é tão diferente de mim na forma de sentir a Pátria. E de a agir. Sobretudo, de pensá-la. Até os conceitos da mesma são quase interditados: não digas Pátria, que me fazes lembrar bibe da mocidade e meninos no 10 de Junho e aquele tacanho que pensava nisto como se fosse a retrete fora da casa com porta de madeira velha e cloaca no chão.

A Pátria não é nada disso. É uma sala de estar, em qualquer parte do mundo onde a sentimos; um local onde nem sempre estamos bem.

Como alguém dizia há dias, um patriota distingue-se do nacionalista, porque não usa o pau da bandeira para abrir caminhos que não são dele.

Mesmo que o outro seja muito parecido comigo, somos diferentes.

A esta hora os meus amigos estão a dizer que enlouqueci e que isto da Pátria não se mede aos meus palmos. Alguns dirão: foi aquela coisa da França que lhe deu volta o miolo – autour do noyau en bon français?  E mesmo que cada um diga, com suspiros melancólicos e pessimistas “isto só neste país!” não faz mais do que materializar, num ponto comum – há quem insista em chamar-lhe cultura –, uma utopia que por vezes nem chega a reconhecer. Desejosos do que queremos ser, alguns de nós vão tentando definir o que achamos que somos.

O golo do Éder. E o Sobral das cantigas

É por isso que há anos se reflete em torno de Portugal e dos portugueses, com a ilusão de que o espaço é o que nos define e que dentro de umas fronteiras existe um sentir comum. Não somos, nem sentimos como um todo. Não somos um povo, mas povos. Pátria como bolo? Só se for daqueles que usam muitos ingredientes e que, mal misturados, ficam à vista quando nos são servidos.

E estamos tão carentes. Tão carentes que despertamos impulsos de esperança em momentos excecionais: ver o presidente da República na rua, connosco, a fazer corridas com os putos ou a servir comida aos sem abrigo, a chegar-se à frente e a interessar-se pelos povos, isto é, a sair do computador onde não joga cartas nem escreve e-mails assustados, como no passado houve quem fizesse. Sim, isso é dar um pai a alguns órfãos.

Ou o golo do Éder, caraças! O golo do Éder. A autoestima que nos faltava nesse minuto exato. E Guterres na ONU, pá, o tipo é português e chegou lá! E o Ronaldo, a bater recordes, a mostrar as curvas (dos abdominais e das namoradas), a marcar golos de sonho!

E o Sobral das cantigas: o miúdo tem aquele ar de frágil pássaro caído do ninho mas sobretudo encheu um pedaço da sua, nossa Pátria de orgulho. E passou às finais lá de um Festival cada vez menos europeu (até lá cantam australianos) em que se meteu quase sem saber ao que ia.

Carentes de Pátria

Estamos tão carentes que os pequenos nadas, pós, nos parecem estrelas de luz intensa.

Não sabemos o que é isso da Pátria. Ou isso da cultura que nos possa definir. Mas ainda vibramos. Sentimos. Choramos. Temos coisas comuns – e se é certo que banal não é comum, também isto de comungarmos a existência é coisa incomum e vasta.

Quando às nossas costas marítimas vier mal aportar um barco cheio de refugiados à deriva a pedir-nos ajuda, talvez estejamos prontos e não os condenemos à morte (sim, soubemos há dias como, a 11 de outubro de 2013,  as autoridades italianas negaram auxílio a mais de 400 sírios que andaram à deriva no Mediterrâneo durante cinco horas. Desses, acabariam por morrer 268 pessoas, incluindo 60 crianças).

Não votámos em Marcelo e todavia já o adoptámos.  Não somos cristãos mas vamos para a estrada ajudar os peregrinos que se esfacelam em tortuosos caminhos, julgando ir ao encontro de um deus que, afinal, estaria em toda a parte.

Não gostamos de futebol e achamos Ronaldo um dos nossos melhores.

Desafinamos e cantamos com o Sobral.

Dizemos mal disto tudo – disto tudo que amamos profundamente.

Estamos tão carentes que o que possa mostrar quem somos sob uma luz de esperança merece a nossa entrega total.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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