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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Estreias | O Caso Spotlight

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O Caso Spotlight

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Os abusos sexuais praticados por membros da igreja católica foram denunciados por um arrojado artigo de investigação jornalística galardoado com o prémio Pulitzer agora convertido num dos filmes do ano, nomeado para 6 Óscares.

Assim de repente, o título “Igreja consente abuso de padre durante anos” até podia ser confundido com uma manchete do Correio da Manhã, mas não. Trata-se da notícia publicada no dia 6 de Janeiro de 2002, no jornal Boston Globe, sobre o escândalo de continuado (e silenciado) abuso sexual por membros da igreja católica na muito católica cidade de Boston. O artigo vinha assinado pela equipa de jornalistas de investigação, Matt Carroll, Sacha Pfeiffer e Michael Rezendes, numa peça redigida pelo último, que haveriam de ganhar um Prémio Pulitzer. Nessa matéria incidia-se luz sobre as queixas de mais de 130 pessoas que aceitaram denunciar os continuados abusos do padre John J. Geoghan cometidos em diversas paróquias de Boston durante três décadas. O artigo seria seguido de vários follow ups e uma investigação que iria envolver cerca de uma centena de sacerdotes, apenas na paróquia de Boston, e manifestar o estigma de um milhar de vítimas.

O genérico final do filme informa até que, durante esse mesmo ano, foram ainda publicados perto de 600 artigos sobre o escândalo, originando a acusação de cerca de duas centenas e meia de sacerdotes na diocese de Boston, finalizando com uma longa lista de localidades espalhadas por todo o mundo onde ocorreram escândalos sexuais. Portugal não estava incluído.

Com este filme, o actor convertido em realizador Thomas McCarthy consegue reabilitar-se após o escândalo desastroso que foi O Sapateiro Mágico, com Adam Sandler nomeado para um Razzie, o rival dos Óscares, pela pior interpretação do ano. No entanto, McCarthy até começou bem a sua carreira de realizador com o promissor A Estação, em 2003, protagonizado pelo short man Peter Dinklage (A Guerra dos Tronos), no filme que relançou a sua carreira. Agora, não só vê reconhecido o seu trabalho com uma nomeação ao Óscar, bem como o de Mark Ruffalo e Rachel McAdams, ambos na categoria de actores secundários, para além do argumento original e da montagem.

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Jornalismo a sério

 Este tipo de história é a razão daquilo que fazemos, afirma o taciturno editor-chefe Marty Baron, numa estupenda interpretação de Liev Schreiber, já na derradeira parte do filme. Ele que entrara no jornal Boston Globe diante do espectro de ‘cortes’ eminentes. Só que, em vez disso, sugere à equipa de investigação Spotlight para apurar a verdade na coluna de uma jornalista sobre o alegado envolvimento de padres católicos em casos de abusos sexuais continuados e devidamente silenciados.

É aí que entra em cena este trio devidamente interpretado por Mark Ruffalo (Mike Rezendes), um repórter de origem portuguesa, Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) a conduzir essa investigação liderada por Robby (Michael Keaton).

Centrando-se na investigação, embora com o cuidado de não cruzar a linha perigosa do sensacionalismo, apesar do peso do tema, o guião de Josh Singer e de Tom McCarthy promete também não fazer concessões e trata as questões pelos nomes. Assim se recria uma ligação estreia entre aquele universo por vezes romantizado das redacções dos jornais e de um papel de investigação que se parece cruzar com o dos advogados e aquele das vítimas de abusos. No fundo, algo que o cinema tem sabido reproduzir em diversos bons filmes.

Apesar do elenco ser bem equilibrado, Mark Ruffalo tem aqui, possivelmente, a sua melhor interpretação de sempre. No papel do hiperativo jornalista português Mike Rezendes que não descansa enquanto não conseguir comprovar os seus dados. De resto, o próprio Ruffalo teve ajuda do próprio jornalista que lhe lia os diálogos nos intervalos da rodagem. Já McAdams faz crescer no ecrã a intensidade serena e carinhosa a interrogar algumas das vítimas.

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É claro que é inevitável lembrarmo-nos de Os Homens do Presidente, o filme de Alan J. Pakula, de 1976, já que se centra também num processo de investigação e nos valores éticos do jornalismo a sério. No filme de Pakula, sobre os intrincados bastidores das escutas no caso watergate, que haveria de ser fatal para o Presidente Nixon; curiosamente, o trabalho de Tom McCarthy abre, por coincidência, com uma breve cena de 1976, em que se aflora a alegados abusos paroquiais devidamente silenciados, para explorar depois até onde seguiram os abusos.

De referir que este tema do envolvimento macabro da igreja católica esteve bastante aceso este ano, o que prova que antes deste escândalo muitas coisas se passavam debaixo das batinas. Ora, é aí que pega o magnífico filme chileno El Club, de Pablo Larraín, incidindo sobre os padres afastados pelo próprio clero, embora não julgados. Infelizmente, um filme importantíssimo (galardoado no passado festival de Berlim com o Prémio do Júri, além de inúmeros outros galardões), embora ainda sem uma data de estreia prevista no nosso país.

Seja como for, O Caso Spotlight é também um filme muito particular para um jornalista, pois faz-nos pensar nesta obrigação de procurar alguma verdade, mesmo quando é a própria actividade que vive uma crise desgastada em que muitos profissionais se vêm privados do seu trabalho e do próprio local de trabalho. Ainda assim, é o frenesim e a adrenalina de explorar o furo jornalístico, a confirmação de dados e fontes e, acima de tudo, a noção de estar a contribuir a descoberta da verdade que fazem com que muitos de nós não desistam de prosseguir a procura destas sensações. Lá está, é como o sexo. Precisamos dele.

Nota: A nossa avaliação (de * a *****)

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