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João de Sousa

Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Quatro

Cartaz - Quatro de João Botelho

Quatro é o documento valioso de João Botelho sobre a criação dos artistas João e Jorge Queiroz e Pedro e Francisco Tropa, que estará em exibição no cinema Ideal, de 28 de Janeiro a 3 de Fevereiro, depois de ter passado no Doclisboa 2014. Circulará depois pelo país. Um documento cinematográfico que nos aproxima da arte da criação e que foi produzido pela Filmes do Tejo II de Maria João Mayer. É, por isso mesmo, muito mais do que um filme que tem de ser visto.

O artista diante de uma tela branca, enfrenta o desafio do que pintar, desenhar, criar; tal como o fotógrafo que procura enquadrar o seu olhar num frame ou o escultor que transforma os materiais para achar o que procura. Diante dele, o homem da câmara de filmar regista-lhes os movimentos, as atitudes dando-lhe um sentido subjectivo. Assim fez João Botelho ao juntar e montar as atitudes criativos de quatro artistas e amigos, dois pares de irmãos, o João e o Jorge Queiroz, o Francisco e o Pedro Tropa. A esse processo haverá ainda o do escriba que se debate com o cursor do processador de texto a piscar procurando ordenar ideias para comunicar esse resultado. E até o espectador/leitor com a sua própria análise.

A verdade é que no final deste documento sobre um quarteto de criadores únicos e diversos sentiremos, eventualmente, que ficámos mais perto dos processos ou intenções insondáveis que levam à criação dos objectos de arte. É essa a viagem fascinante que há para fazer em Quatro.

Como filmar a arte?, interroga-se Botelho nas notas do realizador que acompanham o filme. Sim, e de que forma, talvez, o cinema conseguirá encontrar também uma acomodação nas várias linguagens artísticas, acrescentamos. Talvez o trabalho de Botelho seja apenas o ponto de partida, mas quem sabe se a interpretação individual não colhe ainda um outro significado ao ser iluminado, projectado na tela, ainda que, como diz Botelho, o cinema nunca será o verdadeiro da escultura, nem o verdadeiro da pintura, do desenho ou da fotografia. Contudo, se dissermos que há muito cinema nas pinturas de João ou nos desenhos de Jorge talvez não estaremos equivocados. Ou mesmo no olhar do Pedro ou nos processos que resultam na arte final do Francisco.

João Queiroz
João Queiroz

O realizador, enquanto artista, definiu a sua tela num mosaico de quatro segmentos, cada um com 25 minutos, escutou-os, observou-os, introduziu personagens, actores, que habitaram o processo criativo. E deu-lhe até alguma intencionalidade. De início, o pintor João Queiroz oferece-nos algumas pistas, sugere exercícios para o olhar, como que de pequenos exercícios se tratasse, mas acaba por nos dar uma valiosa perspectiva out of the box que nos ajuda a absorver a abstracção da paisagem (e até dos outros segmentos?) com outro significado. Como aquela que se estende e pode ser apreciada no espaço da Culturgest ou os cenários que dão corpo urbano no filme Os Maias, de Botelho. Vemos João no terreno em acção contemplativa, ao mesmo tempo que a voz de Diogo Dória sugere essa desmultiplicação de formas que nos permite preparar uma certa abstração para o que se segue.

Jorge Queiroz
Jorge Queiroz

E o que se segue é uma insondável e irresistível entrada no mundo de fantasias de Jorge Queiroz, o irmão mais novo de João, mas onde nos parece que o cinema também se intromete. Desde logo dado pelas duas curtas, onde o olhar fílmico, da tela do cinema é filtrado pelas artes plásticas de uma forma incrível e sedutora. E depois há as figuras que habitam a mente do Jorge, algo que comunga com um processo, uma osmose de formas, texturas e figuras que comunicam com diversos quadros, uma espécie de arte da auto-apropriação que nos espevita a imaginação. É, por isso mesmo, o trecho mais fascinante do conjunto por esse intenso convite tão intenso a esse mundo habitado pela sua fantasia.

Pedro Tropa
Pedro Tropa

Como o trabalho fotográfico de Pedro Tropa combina com o alpinismo, convida-nos a subir ao topo para desfrutar das paisagens únicas que depois selecciona em instantâneos. É, por assim dizer, uma arte que exige o movimento e que se espraia pelas diversas montanhas silenciosas que vai escalando em várias partes do globo. Mas estas são imagens que Tropa reflecte depois em desenho numa inusitada combinação entre fotografia e desenho, mas num percurso que começou até pela imagem em movimento, entretanto depois abandonado.

Francisco Tropa
Francisco Tropa

Por fim Francisco Tropa, irmão mais velho de Pedro e amigo de longa data e colega de Jorge Queiroz, combina nas suas criações diversos elementos, como a escultura, o desenho, a pintura e até mesmo o filme, procurando evocar um tempo, história e geografia da própria arte. Vemo-lo em Murano, Veneza – ele representou Portugal na Bienalle de 2011 -, a trabalhar vidro, ou numa fundição na beira interior a reconstruir algo de raiz, onde o próprio processo assume o seu encanto.

Por fim, há ainda a intenção do cineasta que interfere e ausculta, que não se reduz à mera observação, tal como a montagem criteriosa de Maria Joana Figueiredo a fixar-lhe a sequência final. Talvez como o tal guindaste que serve de estrutura ao quarteto e poster do filme.

Trailer, Quatro

 

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